E eis, senhoras e senhores, porque nunca podemos descontar estes Spurs e porque nunca se deve apostar contra uma equipa de Gregg Popovich.
À entrada para esta série esperavam-se (e esperam-se) jogos com uma pontuação baixa e muita defesa. No confronto entre a primeira e a terceira melhores defesas do ano, esperava-se (e espera-se) que a série fosse decidida nessa metade do campo e que cada jogo fosse uma batalha renhida e recheada de jogo a poste baixo, luta no jogo interior, muitas ajudas na defesa, engarrafamentos na área restritiva e luta por cada centímetro de campo. Com os respectivos planos A de cada equipa a série previa-se (e prevê-se) muito equilibrada. Mas isso era se Gregg Popovich não fosse um mestre estratega e não tivesse um plano B (e C e D e ...).
O timoneiro dos Spurs deu mais uma aula de táctica e de como desmantelar uma equipa adversária.
Lição nº1:
Preparar e afinar o plano A até à perfeição.
Os Spurs sabiam que, contra a melhor defesa do ano, teriam de mover muito (e bem) a bola no ataque. Penetrar e assistir para fora, rodar a bola e mudá-la de lado, atrair os defesas, tirá-los de posição e obrigá-los a correr atrás da bola. E assim fizeram. Variaram sempre o jogo ofensivo, os jogadores sem bola estiveram sempre em movimento e a abrir linhas de passe para o jogador com bola e obrigaram os Grizzlies a preocuparem-se não só com o jogador com bola (como fizeram com os Thunder), mas também com todos os jogadores sem bola. Ora com cortes para o cesto, ora com linhas de passe no perímetro, os Spurs conseguiam sempre encontrar jogadores sozinhos e criar boas situações de lançamento.
O único momento em que não fizeram isso (a meio do 3º período), foi o momento em que os Grizzlies recuperaram para 6 pontos. Popovich pediu desconto de tempo, relembrou o plano A aos jogadores, disse-lhes que não podiam ficar parados no ataque e os Spurs voltaram a descolar.
Lição nº2:
Baralhar o plano A da outra equipa
Os Spurs sabiam que o ponto forte dos Grizzlies é o jogo interior e que a chave para emperrar o ataque destes é parar Randolph e Gasol. Mas em vez de procurar defendê-los bem quando estes tivessem a bola, Popovich foi preventivo. Em vez duma defesa reactiva, a ajudar e a ajustar em função do que o adversário faz, foi a defesa dos Spurs a ditar o que os Grizzlies faziam no ataque. Defenderam Randolph (e Gasol) pela frente e impediram inúmeras vezes a bola de sequer entrar no poste baixo.
Em vez de simplesmente defender o plano A dos Grizzlies, Popovich conseguiu repetidamente impedir os Grizzlies de usarem esse plano.
Lição nº3:
Se o plano A está a correr bem, recorrer ao plano B para correr ainda melhor.
Os cincos iniciais das equipas são emparelhamentos equilibrados (embora, como vimos, a superior movimentação de bola dos Spurs possa desequilibrar para o seu lado), mas foi quando Popovich mexeu e baralhou o cinco que os Spurs ganharam uma vantagem ainda maior.
Porque a defesa dos Spurs emparelha muito melhor com qualquer ataque dos Grizzlies do que a defesa dos Grizzlies com qualquer ataque dos Spurs. Com Splitter e Duncan em campo, Gasol e Randolph encaixam bem tanto na defesa como no ataque. E aí trata-se de quem executa e joga melhor.
Mas quando os Spurs jogam com Bonner ou Diaw ao lado de Duncan, o emparelhamento é claramente favorável aos Spurs. Com os Spurs a jogarem com apenas um jogador interior e com o outro poste (ou power forward, depende de como queiram classificar Duncan) a jogar no perímetro, os Grizzlies tiveram (e vão ter) grandes dificuldades em jogar com Gasol e Randolph. Pois se um deles fica a defender Duncan no interior, o outro não consegue defender longe do cesto e andar atrás de Bonner e Diaw no perímetro.
E neste jogo 1 vimos como Bonner pode castigar os Grizzlies se estes mantiverem Randolph em campo a defendê-lo. Por isso ontem tivemos Bonner em campo mais cedo e mais tempo do que temos visto nestes playoffs (uma tendência que se deve manter nesta série) e Lionel Hollins foi obrigado a jogar durante grandes bocados do jogo apenas com Gasol. O treinador dos Grizzlies teve até de recorrer ao pouco utilizado Ed Davis para ter um jogador interior mais móvel que conseguisse defender cá fora (Darrell Arthur tentou, mas não teve melhor sorte que Randolph).
O plano A dos Spurs correu bem e conseguiram ganhar vantagem, mas o plano B foi ainda melhor e foi quando recorreram a ele que os Spurs descolaram para os 20 pontos de vantagem.
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Os Grizzlies, obviamente, vão fazer ajustamentos no próximo jogo. No ataque, vamos ver mais bloqueios no interior e formas diferentes de tentar libertar Randolph e Gasol. E embora na defesa vão continuar a ter problemas com o plano B dos Spurs, vão também fazer ajustamentos e melhorar. Não vai ser uma série tão fácil como este primeiro jogo faz crer. Não descontem já os resilientes Grizzlies. Mas estes Spurs (eliminados pelos Grizzlies na primeira ronda em 2011) parecem ter aprendido a lição. E têm aquele grande professor no banco. Eis porque a nossa previsão para esta série é Spurs em 6.