16.11.11

O lockout da NBA e o autismo


Os sinais estavam lá. Desde que a proposta dos donos foi posta em cima da mesa que os sinais do lado dos jogadores não eram bons. Não faltavam fontes que diziam que os jogadores iam recusá-la, assim como não faltaram também jogadores que, na primeira pessoa, afirmaram logo que não a aceitavam. Como se isso não bastasse, tínhamos ainda os agentes a fazer panelinha entre si e a tentar convencer os seus clientes a não aceitá-la. Mas tínhamos também alguns jogadores a manifestar vontade de aceitar o acordo (como Kevin Martin ou Chris Duhon, o representante dos Magic). E jogadores (como Luis Scola e Glen Davis) que achavam que todos os jogadores tinham o direito de decidir uma questão tão importante e queriam que a proposta fosse levada à votação de todos os 430 jogadores. Ou ainda Kobe Bryant que dizia que não podiam estar tão perto dum acordo e não o fechar.

E nós somos optimistas. E quando vimos Kobe entrar na reunião de segunda feira mais ficámos. Por isso, até ao fim, queríamos acreditar que as cabeças frias iam levar a melhor e o bom senso ia imperar. Mas isso se calhar era ser muito optimista. Quiçá mesmo irrealista. Porque esta disputa já está (se é que alguma vez não esteve) para lá do racional e do bom senso. Já não se trata de discutir objectivamente questões laborais e económicas. Já não se trata de conseguir o melhor acordo possível para a respectiva parte. Não, agora estamos no plano do ego e do orgulho. E da birra. Jason Richardson, com um único tweet, demonstrou-o e resumiu-o melhor que mil declarações de jogadores e mil conferências de imprensa do sindicato:

Não, Jason, isso é apenas ser casmurro!
É neste ponto que estamos. Não se trata do que é justo ou injusto, mas apenas de teimosia. Se vocês ganham na divisão do BRI, então nós temos de ganhar nas regras do sistema. É isto que os jogadores dizem aos donos. Não, caro Jason e caros jogadores, as questões do sistema, tal como todas as outras, nao têm, por obrigação nenhuma, de vos favorecer. Tal como não têm de favorecer os donos. Têm de favorecer o jogo e a liga no seu todo. É essa a grande decepção. Ver as duas partes a lutar pelos seus interesses (o que têm todo o direito de fazer), mas de forma autista, sem qualquer consideração pelo contexto e pelo todo de que fazem parte. 

Jason Terry também fez um excelente trabalho a resumir e demonstrar isto. Em entrevista a uma rádio de Dallas, disse que o argumento e a estratégia dos jogadores "é tentar fazer crescer o jogo de basquetebol e sob os termos que nos apresentaram, o jogo de basquetebol para nós, do ponto de vista dos jogadores, financeiramente, não vai crescer." Ora então para os jogadores fazer crescer o basquetebol é fazê-lo crescer, financeiramente, para eles? Está tudo dito.

E assim, no meio deste autismo, os 30 representantes das equipas decidiram não levar a proposta aos seus pares, o que, com tantos jogadores a manifestar opiniões contrárias e uma óbvia divisão entre os 430 membros do sindicato, é uma decisão muito discutível. Henry Abbott, do excelente True Hoop, foi um dos primeiros a criticá-la. Uma decisão que, pedindo emprestadas as palavras de David Stern, nos lança para um inverno nuclear na NBA. Pois tirem os chapéus de chuva para fora, porque não sabemos como e quando este inverno vai acabar.


(a seguir: o lockout da NBA e os funcionários públicos)

7 comentários:

  1. Encontrei essa imagem e achei interessante partilhar. Talvez para uma nova ideia de "slogan" para esse blog :-)

    http://media.bonnint.net/az/27/2764/276498.jpg

    De qualquer das formas, aquilo que parecia estar em bom caminho afinal foi só treta. Por mim acho que está muita pressão por parte das estrelas que não querem abdicar enquanto estão a prejudicar os menos mediáticos ou rookies. Não creio que isto fica assim muito tempo porque lá está, existe desunião. Uns querem jogar e pronto submetem-se à oferta dos owners e outros que insistem em não perder os direitos deles. O ego é uma cena fod....

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  2. Eu tambem quero ter nba esta epoca, mas acho bem que os jogadores nao cedam, eles como principais intervenientes do jogo devem ser a parte que manda e se formos transpor isto para a realidade portuguesa é facil fazer a analogia entre os que ganham fazendo e os que ganham sentados, a diferenca neste caso sao os valores envolvidos

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  3. pro.benfica16/11/11, 18:36

    Estou de acordo com o anónimo: um gajo que ganha 20 milhões de euros (pronto, está bem, há os que só ganham 3 ou 4 milhões por ano, esses infelizes) tem de fazer finca-pé para defender o seu parco salário.

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  4. Muito engraçada essa imagem, tugal, mas não vamos adoptá-la aqui para o SeteVinteCinco! Haja temporada ou não, vamos continuar aqui a falar sobre o desporto e a liga que adoramos! Aqui a NBA vai continuar a acontecer! ;)
    Podemos é ter de nos tornar um blogue sobre emigrantes! Porque se não houver jogos nos Estados Unidos, os jogadores da NBA (ou alguns deles, pelo menos) vão jogar noutros sítios e aqui estaremos para acompanhar as suas desventuras. :)

    E, Anónimo das 16:25, quanto aos jogadores serem os principais intervenientes e deverem por isso ser a parte que manda, o nosso próximo post do "lockout e os funcionários públicos" irá falar dessa questão!

    Obrigado pelos vossos comentários e até lá! :)

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  5. ja que vais falar sobre os jogadores da nba podias começar pelo tony parker .
    acho que ele seria um dos jogadores que aceitaria a proposta dos sonos pelo que ta a fazer em frança
    continua o bom trabalho Márcio

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  6. Realmente a ganância é uma coisa inacreditável...é triste ver jogadores que respeitava e que agora são dos principais causadores desta situação...os agentes não me surpreende porque não é segredo nenhum que são uns interesseiros...é triste não ver amor ao jogo...á camisola e ser tudo resumido a uma questão de dinheiro...indfelizmete acho que é um bocado um reflexo da sociedade (de um modo geral) hoje em dia...esperemos por melhores dias...

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  7. a questao nao ta no valor do salario, mas no principio de o motivo pelo qual gostamos do jogo serem os jogadores e nao me acredito nos prejuizos apresentados pelas equipas, a historia empresarial americana na ultima decada é disso exemplo

    se é moral ou nao milionarios andarem a discutir sobre quem mais ganha, é outro assunto

    o amor ao jogo, isso é coisa de fas daqueles que em miudos acordavam cedo ao fim de semana, anos mais tarde vao treinar as 10 10.30 e no dia seguinte vao trabalhar ou ficam ate de manhazinha a ver os jogos e vao trabalhar passadas umas horas, se alguem se lembra do Nate Johnston que jogou em Portugal ha uns 10 anos, teve uma entrevista interessante a esse respeito

    marcio

    a analogia que fazia era relativamente às 2 revisoes do codigo laboral dos ultimos 8 anos que deram em mais desemprego e precariedade, com pouca ou nenhuma reacçao dos trabalhadores e como estao hoje as coisas e as medidas tomadas nem comento

    continua o bom trabalho

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