19.11.13

Fazer falta ou não fazer falta, eis a questão


É uma das discussões frequentes entre quem segue a NBA e uma discussão recorrente nas transmissões da Sport TV: uma equipa está a ganhar por 3 pontos nos últimos segundos do jogo e a equipa adversária tem a posse de bola. Deve a equipa que está a ganhar fazer falta para impedir um triplo (dando à outra equipa dois lances livres e a oportunidade de fazer apenas dois pontos) ou deve defender a posse de bola?

Para o Luis Avelãs, não há discussão: deve-se fazer falta e ponto final (e os treinadores da NBA são todos uns burros por não fazerem). Mas a questão está longe de ser assim tão simples. Ontem tivemos essa situação no final do Thunder x Nuggets. Com 3.9 segundos para jogar e os Thunder à frente por três, Derek Fisher fez falta sobre Ty Lawson assim que ele recebeu a bola e antes que este conseguisse armar um lançamento. Foi uma situação que não vemos muitas vezes na NBA e, aparentemente, a decisão correcta naquela situação (o jogo ficou longe de estar decidido aí, mas já lá vamos). Então porque não fazem isso mais vezes?


Antes de mais, havia alguma resistência de alguns treinadores em relação a essa estratégia, que viam como anti-desportiva. Mas ninguém pensa que é anti-desportivo fazer falta para parar o cronómetro quando se está atrás, e fazer faltas no último minuto de jogo e meter o adversário na linha de lance livre é uma estratégia generalizada. Por isso, porque seria anti-desportivo quando se está à frente? Logo, essa questão filosófica não tem, na nossa opinião, razão de ser e está, de resto, a ser ultrapassada e abandonada pela maioria da liga. Cada vez mais treinadores não têm qualquer problema em fazê-lo. Então porque não vemos isso acontecer mais vezes?

Porque, mesmo pondo de parte a questão filosófica, a questão táctica está longe de ser simples. Por várias razões:

Primeiro, depende de quantos segundos faltem para acabar o jogo; com mais de 10 segundos para jogar, há tempo suficiente para a outra equipa marcar os lances livres e fazer falta a seguir. A equipa que está à frente vai para lance livre e na posse de bola seguinte volta e encontrar-se perante o mesmo cenário. Volta a fazer falta e os outros voltam a fazer falta também e a situação pode repetir-se até acabar o tempo de jogo. E a equipa que está à frente entra num desnecessário e sempre arriscado concurso de lances livres. Por isso, muitas equipas (com razão) preferem defender uma posse de bola a entrar nesse concurso.

Portanto, esse cenário de fazer falta só é opção se estivermos mesmo nos últimos segundos do jogo (Stan Van Gundy punha o limite nos 6'', Phil Jackson nos 5'', por exemplo) e fôr mesmo a última posse de bola do jogo. E mesmo nesse cenário, a situação pode tornar-se imprevisível (ontem tivemos um exemplo disso: depois da falta de Derek Fisher, em 3'' ainda tivemos mais 3 posses de bola - uma para os Thunder e duas para os Nuggets - e a falta de Fisher não impediu os Nuggets de terem uma chance de ganhar).

Depois, e relacionado com a primeira razão, depende se a outra equipa ainda tem descontos de tempo ou não; se não tiver, mesmo que tenham tempo para fazer falta a seguir aos seus lances livres, na posse de bola seguinte terão de repor a bola na linha de fundo (ou ganhar o ressalto) e atravessar o campo todo para conseguir um lançamento. Por isso, fazer falta só é hipótese se faltarem menos de 5 ou 6 segundos e/ou se a outra equipa não tiver mais descontos de tempo.

E por último, pela regra da continuação no acto de lançamento. Fazer intencionalmente falta a um jogador longe da bola está fora de questão, porque uma off ball foul (a um jogador que não está a participar na acção que se desenrola junto à bola) dá direito a lance livre e posse de bola (nos dois últimos minutos de jogo, não há hack-a-ninguém). Por isso, a falta tem de ser ao portador da bola (ou ao bloqueador ou um jogador que esteja a participar na acção junto à bola). E isso, com a regra de continuação da NBA, não é tão fácil de fazer como parece. Como vimos no jogo Knicks x Rockets da passada quinta-feira:


James Harden fez falta sobre Carmelo, mas os Rockets tiveram muita sorte de os árbitros não terem dado continuação e ser uma jogada de possíveis 4 pontos. O árbitro explicou depois que marcou falta no primeiro contacto de Harden, quando Anthony ainda estava de costas para o cesto e por isso não houve continuação. Mas foi uma decisão à justa e que podia ter caído facilmente para o outro lado e saído pela culatra à equipa de Houston.

Por isso, e essa é a regra que muitos treinadores transmitem aos jogadores, fazer falta apenas se o jogador estiver de costas para o cesto. Se ele estiver de frente para o cesto o risco de conseguir três lances livres é grande.

Portanto, fazer falta ou não fazer falta quando se está à frente por 3? Depende das circunstâncias e, mesmo quando estas são ideais, é preciso cuidado ao optar por essa estratégia. Porque, como vimos, é uma questão que é tudo menos simples.

5 comentários:

  1. Concordo bastante com o que foi escrito. Não é tão preto no branco como Luis Avelãs diz, são mais vários níveis de cinzento. A realidade é que cada vez mais discordo com as opiniões expressas pela dupla da NBA na Sporttv, talvez porque só comecei a seguir NBA há 4 anos atrás e antes era totalmente "inculto" no que concerne a esta competição, de maneiras que comia tudo o que diziam. Enfim... Bom post!

    ResponderEliminar
  2. Miguel Moreira19/11/13, 23:07

    Como jogador vivenciei situaçoes destas, numa delas com posse de bola na linha de ll, 5,3 sgundos para o fim. Up por 1, marcar os dois? falhar o ultimo? o risco pareceu-me demasiado elevado por isso disse ao meu colega, para marcar o segundo tambem.

    Converteu nao houve timeout, mas houve sim o base a receber a bola, a por a bola no chao, e a lançar de tras da linha de meio campo e a empatar o jogo com 0 segundos para jogar.

    Se deviamos ter feito falta? Talvez...
    Mas o assunto é demasiado delicado, principalmente na NBA que falhando o 2 ll a equipa que ganhe o ressalto tem oportunidade de parar o cornometro e pedir time out imediatamente.

    Para mim, fazer falta ou nao fazer nestas situaçoes, nao é o que leva o uma equipa a ser melhor que a outra, mas para ganhar, nao se deve arriscar a falta com 4 segundos para o fim. Defender é mais eficaz!

    Bom Artigo

    ResponderEliminar
  3. Márcio por acaso queria fazer uma pergunta em relação ao último jogo Denver-OKC.. a 3.5 segundos do fim Westbrook faz uma falta qdo a bola nem sequer estava em jogo (estava nas mãos do jogador q ia fazer o inbound pass). Sendo q a falta ocorreu antes n devia ser 2 lançamentos e posse para Denver?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os árbitros consideraram que a falta foi feita sobre o jogador que ia receber a bola e, por isso, não foi uma off ball foul. Apesar de Lawson ainda não ter a bola, é um jogador que estava envolvido na acção da bola e é uma falta normal. Como o livro de regras da NBA explica:

      Q. During the last two minutes of the fourth period, Player A1 is attempting a throw-in from out-of-bounds to Player A2. As the ball is in the air and Player A2 awaits the pass, he is fouled by Player B1. How is this administered?

      A. This is a common foul, as Player A2 was involved in the play. This is not considered an away-from-the-play foul. On the same play, if Player A3 was setting a screen for Player A2 and was fouled, it also would be considered a common foul.

      Eliminar
    2. got that.. obrigado ;)

      Eliminar