16.11.14

Tudo o que a NBA não precisa - parte 2


Já aqui falámos do que pensamos sobre o discurso radical e inflamatório da nova presidente da Associação de Jogadores. Mas tão ou mais preocupante do que o tom das declarações de Michele Roberts ou as suas opiniões sobre a divisão de receitas são as suas ideias sobre o tecto salarial e os contratos máximos.

Discutir a divisão de receitas é uma coisa. É algo que já sabemos que irá ser discutido no próximo acordo colectivo de trabalho, que gerará, como sempre, uma divisão entra as duas partes e poderá originar um novo lockout. Podemos discordar e considerar desnecessário o tom provocatório e de sindicalista radical da senhora Roberts, mas isso são as duas partes a discutir como dividir o bolo. Pôr em causa o tecto salarial é outra coisa completamente diferente e que põe em causa a NBA como a conhecemos.

Diz a senhora Roberts que existir um limite para aquilo que os jogadores podem ganhar e para aquilo que as equipas podem gastar "é incrivelmente anti-americano e o meu ADN sente-se ofendido com isso". 

Concordamos que, de facto, é anti-americano. Esse é, aliás, um dos maiores paradoxos do desporto mundial. Nos Estados Unidos, que são o país mais capitalista e com uma das economias mais liberais do mundo, o desporto é incrivelmente socialista, com regras de distribuição de receitas e mecanismos que procuram assegurar maior paridade e equilíbrio entre todos. E na Europa, no berço do socialismo e do estado social, onde os países têm sistemas públicos de saúde e de educação e mecanismos de distruibuição de riqueza, o desporto é totalmente capitalista e vigora a lei do mais rico.

Por isso, sim, o tecto salarial é anti-americano. Mas, ao contrário da senhora Roberts, nós achamos que isso é uma coisa boa. E que isso é o que torna a NBA tão especial e esse modelo desportivo americano tão bom (e melhor que o europeu).

Uma das coisas que torna a liga americana única é esse sistema em que todos têm de jogar pelas mesmas regras, e que procura reduzir as diferenças entre as equipas mais ricas e menos ricas e assegurar que mais equipas tenham condições de lutar por um título.

Acabar com o tecto salarial seria acabar com a NBA como a conhecemos. E isso é algo que nem os próprios jogadores devem querer. Porque aí seria a lei do mais rico. E alguém quer ver a NBA como o futebol europeu, em que ganham sempre os mesmos? Alguém quer ver uma equipa da NBA fazer um plantel galáctico à lá Real Madrid e que pudesse juntar no mesmo plantel Chris Paul, LeBron James, Kevin Durant, Anthony Davis e Dwight Howard?

As regras da NBA são anti-americanas? São. E ainda bem. Porque esse é um dos maiores feitos da liga, conseguir no país mais capitalista do mundo ter a liga desportiva mais socialista do mundo. Esperemos que isso não mude.

6 comentários:

  1. Márcio, nos últimos 10 anos 8 equipas venceram liga dos campeões, nos últimos 10 anos somente 5 equipas venceram a NBA. se aumentarmos para 20 anos temos 12 equipas vencedoras da liga dos campeões e 8 equipas vencedoras na NBA. Desde a época de 88/89 nenhuma equipa conquista por duas vezes seguidas taça dos clubes campeões europeus / liga dos Campeões, desde 88/89 7 equipas venceram pelo menos duas vezes seguidas o titulo da nba. nos últimos 20 anos somente houve duas finas da liga dos campeões em que os finalistas entre as mesmas equipas na nba nos ultimos 20anos por quatro vezes houve repetiçoes de final. As hipóteses do real madrid vencee esta época a liga dos campeões é 0, nenhuma equipa conseguiu vencer a champions duas vezes seguidas já na NBA as hipóteses dos spurs vencerem novamente são muito altas.
    Não considero o modelo americano mais justo, ainda que possa parecer os meus factos desmontam essa teoria, já para não falar que o play off é muito injusto, pois um oitavo classificado pode vencer da fase regular pode ser campeão, enquanto que o vencedor da case regular pode ser logo eliminado na 1 ronda. Para mim o melhor é quem é mas regular é mais justo todos jogam contra todos e no fim quem tiver mais vitórias vence, é menos espetacular mas é muito mais justo.

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    1. Podemos discutir se é melhor o modelo de playoffs ou de campeonato por jornadas (e essa é uma questão subjectiva e que depende da preferência de cada; eu, pessoalmente, gosto do formato em playoffs), mas quando falo do modelo desportivo americano não me refiro ao formato do campeonato, mas à estrutura e filosofia (financeira e legal) das ligas.

      E, nesse aspecto, referia-me em particular à estrutura dos campeonatos nacionais, onde existe um fosso enorme e inultrapassável entre os clubes ricos (os Reais Madrids, Barcelonas, Benficas, Portos) e os outros (um Rio Ave nunca poderá lutar por um título).
      Na Liga dos Campeões, onde jogam os melhores de cada país, esse fosso é um pouco diluído, mas, mesmo assim, e apesar de, como dizes, terem havido vencedores diferentes, esses vencedores (e finalistas) são sempre dos campeonatos mais fortes/ricos (Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha). E muito dificilmente uma equipa de outro país (o Porto foi a excepção nos últimos 20 anos) consegue ganhar essa prova.

      Mas levantas um ponto importante: na NBA não existe uma paridade total. O sistema do tecto salarial reduz a vantagem das equipas ricas, mas não a elimina completamente.
      As equipas mais ricas continuam a ter alguma vantagem, pois podem gastar mais dinheiro e, passe a redundância, podem dar-se ao luxo de pagar luxury tax. Mas (como mostram os Spurs, por exemplo) com uma gestão competente é possível montar uma equipa campeã.
      Mas se eliminasses esse sistema, eliminavas completamente a paridade e o fosso entre as equipas mais ricas e as outras aumentaria. O que, na minha opinião, seria mau para a liga.

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    2. márcio, entendo o teu ponto de vista, mas seja em que sistema for as hipóteses dos Bucks ou wolves serem campeões são as mesmas do rio ave, levante, bastia, cristal palace, shalke 04, torino, etc... não existe modelos perfeitos.

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    3. Não concordo que as hipóteses dos Bucks ou Wolves sejam as mesmas desses clubes; as desses clubes são nulas, as dos Bucks e Wolves são menores do que equipas de mercados ricos, mas não são nulas.
      Como disse em cima, os Spurs são o exemplo de que é possível montar um campeão num mercado pequeno. Tens é de ser muito competente (mais competente que num mercado maior).

      Mas, independentemente disso, concordo que não é um modelo perfeito e não há modelos perfeitos. Mas sem tecto salarial, seria muito mais imperfeito.

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  2. Ainda bem que voltas a tocar neste assunto, Márcio. De facto, acho muito interessantes os contrastes entre os modelos desportivos americano e europeu. O caso americano é um autêntico case study, uma deliciosa contradição no seio do espírito da sociedade americana - que seja uma sindicalista a apontá-lo, torna tudo muito mais engraçado.

    No entanto, creio que esse próprio espírito "socialista" desvirtua a competição. Adoro a NBA. Mas quando vejo uma equipa a fazer por perder um jogo sabendo que, quanto pior o seu desempenho, maiores são as possibilidades de uma grande recompensa, mais convencido fico de que não estou a assistir a desporto, mas sim a wrestling ou qualquer outro teatro. E não estou só a falar de tanking. Sei que este assunto já foi debatido mil vezes, mas ainda assim... O fundo das tabelas é o calcanhar de aquiles da NBA.

    Depois, o "modelo europeu" tem nuances. Por um lado temos um PSG, um devaneio de um lunático milionário que a UEFA ignora olimpicamente (talvez agora com o fair play financeiro?). Por outro temos um Dortmund, que compete num país que aprovou a lei dos 50%+1 (a percentagem mínima que os associados devem deter do clube) e obrigou os clubes a depender menos dos investidores externos e mais da capacidade de formar profissionais de excelência e de acertadas decisões desportivas. Safou-se quem fez as melhores escolhas, quem ganhou mais em campo, quem formou os melhores. Àqueles três que, a cada ano, não conseguem esses objectivos, ninguém oferece de mão-beijada os próximos Reus, Draxler, Muller. Dizer isto num blog dedicado à NBA deve raiar o insulto :)

    Aproveito apenas para dizer que há já muito tempo que não falho um único post teu. Obrigado pelo teu trabalho.

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    1. Obrigado eu, JP, pelas tuas visitas e por acompanhares assiduamente o blogue.

      Em relação à questão do tanking, penso que essa é uma discussão separada do tecto salarial e que uma coisa não exclue a outra. Pode-se melhorar essa questão do draft e dos incentivos para perder sem eliminar as regras salariais que asseguram uma maior paridade. Melhore-se o sistema do draft, mas sem eliminar o resto do sistema.

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