30.12.15

Curry a mais?


Está Stephen Curry a fazer mal ao jogo de basquetebol? Segundo o seu ex-treinador, está. 
Mark Jackson, treinador dos Warriors entre 2011 e 2014 e actual comentador da ABC afirmou, durante a transmissão do jogo Warriors x Cavs, que "até certo ponto, ele está a fazer mal ao jogo. E o que eu quero dizer com isso é que vou aos jogos de liceu, vejo aqueles miúdos, e a primeira coisa que eles fazem é correr para a linha de três pontos. Não és o Steph Curry. Trabalha nos outros aspectos do jogo. As pessoas pensam que ele é só um atirador certeiro."

Terá Jackson razão? Sim e não. Ou melhor: não tem razão, mas entendo o que ele quis dizer e ele levanta uma questão pertinente. Só que escolheu mal (muito mal) as palavras.

Nenhum jogador que faz coisas que nunca foram feitas faz mal ao jogo. Dr. J e Jordan, quando voaram como nunca ninguém tinha feito, não fizeram mal ao jogo. Magic, quando passou a bola como nunca ninguém tinha feito, não fez mal ao jogo. Pete Maravich, quando manejou a bola como nunca ninguém tinha feito, não fez mal ao jogo.

Estes jogadores fizeram o jogo evoluir e levaram-no mais longe. Mostraram-nos novas jogadas, acrescentaram novos movimentos e novas possibilidades. Tornaram o jogo melhor e mais excitante e conquistaram milhões de miúdos para o jogo. Que é o que Curry está também a fazer. Quando ele lança como nunca ninguém lançou não faz mal ao jogo. Faz bem. 

Mas (e é esta a questão pertinente a que Jackson, nos seus modos errados, se referia) também coloca desafios novos. Coloca desafios diferentes aos treinadores e à formação de jogadores. Falem com qualquer treinador de formação e ele irá confirmar-vos isso. Os miúdos querem ser como ele. E isso é bom e mau.

Os miúdos da minha geração queriam ser como o Jordan. E todos queriam fazer lançamentos a cair para trás como ele. Quantos o conseguiam fazer bem? Cerca de ... zero. 
Isso fez mal ao jogo? Não, mas criou um desafio novo. Os treinadores tiveram de lhes explicar que antes de tentar executar um lançamento daqueles em jogo, tinham muitos fundamentos para aprender primeiro.

A longo prazo, só fez bem ao jogo e deu origem a gerações de jogadores mais criativos e com arsenais ofensivos mais variados. Tal como vai acontecer com Curry. Daqui a 5 ou 10 anos vamos ter mais e melhores lançadores por causa dele. 
Mas, a curto prazo, também vamos ter muitos miúdos a tentar lançamentos que não conseguem ainda fazer e muitos treinadores a explicar que antes de poderem chegar ao ataque e lançar a um metro da linha de 3 pontos têm muito que treinar e muitos milhares de lançamentos que fazer antes.

Com cada novo exemplo vem também a necessidade de explicar, enquadrar e relativizar aquilo que é feito. É esse o desafio que Curry traz. Isso não é bom para o jogo? Não. É óptimo.

1 comentário:

  1. Embora compreenda a perspectiva de Jackson, julgo que as suas constantes farpas aos GSW partem mais de um sentimento de inferioridade do que propriamente o "dano" ao jogo. Não podemos negligenciar que Jackson, com um roster praticamente igual ao que está fazendo história, fez umas épocas normalitas e acho que ainda não arranjou nova equipa exactamente por isso. E isto sem menosprezar o papel que teve no desenvolvimento de alguns destes jogadores (Green, Curry e Klay). Talvez exista a possibilidade de aumentar a distância da linha de 3 para retirar incentivos ao lançamento triplo e a sua preponderância no jogo contemporâneo, mas ver lançar Curry é uma gozada, tem já argumentos sólidos para ser considerado o melhor lançador de toda a história da NBA. E isto vem de alguém como eu, que não simpatiza propriamente com a imagem de "church boy" do jogador dos Warriors.
    Se Jackson quer falar de prejudicar o jogo, e sugeria um tema para futura abordagem se alguém achar apropriado, acho mais útil referir as proporções ridículas que está adquirindo a táctica do "Hack-a-...". A inovação da falta intencional nos últimos 2 minutos saltando às cavalitas do adversário, cometidas por exemplo por CP3 nos LAC ou por Delly nos Cavs vai ser prática progressivamente mais vista numa liga de "copy-paste". A FIBA tem o problema resolvido há décadas e não compreendo como a NBA lhe segue o exemplo. Como adepto do jogo, convivo muito melhor com os triplos impossíveis de Curry, com uma eficiência do outro mundo, ao circo de assistir ao lançamento de tijolo atrás de tijolo da linha do livre.
    Bom 2016 a todos...

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