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3.11.16

O mestre das ATO


Se vos pedirmos para dizer, assim de cabeça, os 5 melhores treinadores da liga (ou até mesmo os 10 melhores), provavelmente não se vão lembrar de Terry Stotts. Irão, provavelmente, lembrar-se de nomes como Popovich, Brad Stevens, Steve Kerr, Tom Thibodeau, Rick Carlisle, Stan Van Gundy, Doc Rivers ou até Luke Walton antes do do treinador dos Blazers.

Stotts pode não ter a fama e a atenção mediática que outros treinadores têm, mas a verdade é que, para além do excelente trabalho que tem feito com a equipa de Portland nos últimos anos, é um dos melhores treinadores da liga a fazer ajustes em jogo e, em especial, a desenhar jogadas de reposição de bola após desconto de tempo (uma ATO, i.e., uma jogada "after time out").
Temos, por exemplo, a famosa jogada do triplo de Damian Lillard nos playoffs de 2014, ou este cesto da vitória de Robin Lopez em Denver.

No início desta semana, os Nuggets voltaram a ser vítima dos engenhosos X's e O's de Stotts:


"Mas os Nuggets também foram muita nabos a defender!", dirão vocês. Sim, é verdade que podiam ter defendido muito melhor. O Faried devia ter dado uma ajuda sobre o corte de Lillard, ou até mesmo trocar e seguir com este; fechava facilmente a linha de passe e entre Meyers Leonard a receber a bola na linha de 3 pontos ou Lillard a receber sozinho debaixo do cesto a escolha é fácil.




Foi o que, perante a mesma jogada dos Blazers, os Suns fizeram ontem. PJ Tucker ficou na ajuda e impossibilitou essa opção:






Mas pensam que Stotts e os Blazers não tinham mais hipóteses desenhadas para o caso de não conseguirem fazer o passe para Lillard? Pensem de novo:


Após o corte de Lillard, tinham ainda mais duas opções: Meyers Leonard, depois de bloquear Lillard, vai bloquear CJ McCollum e este abre para a bola para receber nos 3 pontos.


E, na opção que lhes deu o cesto, Leonard desfaz do bloqueio, corta para o cesto e recebe a bola sozinho (aproveitando a descoordenação dos Suns, que ficaram entre a ajuda e a troca defensiva - Tucker trocou e seguiu com McCollum, mas Brandon Knight hesitou na troca e foi atrás do poste dos Blazers muito tarde).



Esta jogada pode ainda ter outras opções (por exemplo, CJ McCollum recebe o bloqueio de Leonard mas, em vez de abrir para os 3 pontos, faz um curl e corta para o cesto; ou então, em vez de receber o bloqueio de Leonard, McCollum pode voltar para trás e fazer um bloqueio a Lillard para este abrir para os 3 pontos). Por isso, pode não ter sido a última vez que Stotts usa esta movimentação. Com uns ajustes, ainda pode surpreender mais alguma equipa.

E já sabem, da próxima que vos perguntarem pelos melhores treinadores da NBA, não se esqueçam de Terry Stotts.

3.5.16

Três razões para uma derrota


Vamos começar pelo fim e pela jogada de que toda a gente fala. Foi falta ofensiva do Dion Waiters na última reposição de bola dos Thunder? Claro que sim. A própria NBA já o admitiu. Mas não foi por isso que os Spurs perderam. 
A equipa de San Antonio teve, na mesma, aquilo que teria se os árbitros tivessem assinalado a falta: posse de bola. E até podemos argumentar que, com o roubo de bola que conseguiram após a reposição, tiveram uma posse de bola mais vantajosa do que teriam numa posse de bola após falta e com a defesa de OKC montada. Tiveram um contra-ataque e uma situação de 3x1 com duas boas situações de lançamento que desperdiçaram. 

E nem vale a pena discutir todos os "ses" dessa bizarra posse de bola final, porque senão nunca mais saíamos daqui e tínhamos alguns 50 cenários e variáveis possíveis (se a violação anterior do Ginobili tivesse sido assinalada; se a falta do Waiters tivesse sido assinalada; se a falta de Leonard sobre o Westbrook tivesse sido marcada; se houve falta sobre o Durant; se Ginobili tivesse lançado; se o lançamento do Mills tivesse entrado, se a falta do Ibaka sobre Aldridge tivesse sido marcada).
Não foi por uma jogada que perderam. Manu Ginobili resumiu-o melhor que ninguém quando lhe perguntaram se o jogo lhes foi roubado nesse lance: "Não, claro que não. Não foi essa jogada que decidiu alguma coisa até porque conseguimos o roubo de bola e tivemos um lançamento."

Terá sido então, como o Luís Avelãs disse durante a transmissão da Sport TV, simplesmente porque os Spurs jogaram mal? Segundo ele, os Thunder não fizeram nada de diferente e os Spurs é que jogaram pior do que no jogo 1. Mas não, também não foi por isso que perderam.

Perderam, porque, entre outras coisas, e ao contrário do que o Luís afirmou, os Thunder fizeram três mudanças fundamentais:

A primeira foi uma mudança de atitude. Neste jogo 2, foram muito mais agressivos. Foram mais agressivos na defesa, pressionaram muito mais o portador da bola, mantiveram-se muito mais colados aos jogadores sem bola e fecharam muito melhor as linhas de passe. E foram muito mais agressivos nas tabelas, ganhando mais 11 ressaltos que os Spurs (no jogo 1, tiveram menos 5).

As outras foram dois ajustes defensivos.

Primeiro, depois de ter sido Durant a ter essa tarefa no jogo 1, começaram com Andre Roberson a defender Kawhi Leonard. O shooting guard menos shooting da liga pode ser uma nódoa no ataque, mas ontem fez um bom trabalho na defesa, andou sempre colado a Leonard, obrigou-o a trabalhar mais para receber a bola e dificultou-lhe bastantes lançamentos. Depois de, no jogo 1, o extremo dos Spurs ter marcado 25 pontos em apenas 13 lançamentos, ontem marcou apenas 14 pontos em 18 lançamentos (com 0-3 em triplos).

Segundo, mudaram a defesa do pick and roll. No primeiro jogo, o defensor do bloqueador recuava para parar a penetração:






Como resultado disso, os jogadores dos Spurs que penetravam tiveram espaço para operar e tempo para pensar. Tony Parker, em particular, aproveitou esse espaço da melhor forma para distribuir e assistir o jogador (Aldridge, na maioria das vezes) que desfazia do bloqueio e terminou com 12 assistências.

Ontem, colocaram o defensor do bloqueador a sair, a pressionar o portador da bola e a afastá-lo do cesto (a fazer um "show" agressivo):






No jogo 1, os Spurs iniciaram ataques a partir do pick and roll sempre que quiseram e como quiseram. Ontem essa tarefa foi muito mais difícil. Tony Parker fez metade das assistências do jogo 1 e não teve nem metade do espaço e do tempo para operar e distribuir a bola e os Spurs, no total, tiveram menos 20 (!) assistências que no primeiro jogo.

Os Thunder também melhoraram no ataque. Moveram mais e melhor a bola, envolveram mais Adams e Ibaka (e Kanter e Waiters) e tiveram melhores situações de lançamento. Em vez de se ficarem pela primeira opção do ataque, procuraram muitas vezes as segundas e terceiras opções e, coisa às vezes rara no seu ataque, mudaram a bola de lado e procuraram jogadores sozinhos do outro lado do campo.

Mas a maior diferença foi na defesa. Depois de terem sofrido 124 pontos em apenas 84 lançamentos e de terem deixado os Spurs fazer tudo o que queriam no ataque, ontem sofreram apenas 97 em 94 lançamentos e obrigaram os Spurs a trabalhar mais para conseguir situações de lançamento e forçaram-nos a fazer lançamentos piores. 

Se, como se diz, uma série só começa quando uma equipa vence fora de casa, então esta começou ontem. Pop, é a tua vez.

5.3.16

Descubra as diferenças


Vamos fazer um jogo e descobrir as diferenças entre a última posse de bola dos Celtics e a última posse de bola dos Knicks no jogo de ontem entre as duas equipas:




E as Soluções:

CELTICS: reposição de bola na linha lateral do lado direito, com os 5 jogadores preparados e em posição.

O Jae Crowder faz um bloqueio ao Avery Bradley, enquanto o Isaiah Thomas abre para um canto e o Jared Sullinger abre para o outro.


O Evan Turner, que está a repor a bola, passa para o Bradley e vai-lhe fazer um bloqueio directo.


O Bradley aproveita o bloqueio e penetra em drible pelo lado direito.

O Langston Galloway e o Lance Thomas são lentos na troca defensiva e Bradley ganha vantagem e fica à frente do defensor. Nesta altura, a jogada dá-lhe três opções: 1- continuar o drible e lançar na passada; 2 - assistir para o Sullinger, se o Robin Lopez vier à ajuda; 3- assistir para o Thomas, se o Afflalo viesse à ajuda.



Como conseguiu manter a posição à frente do defensor, o Lopez hesitou e ficou a meio na ajuda e o Afflalo não largou o Thomas, Bradley não teve de recorrer as opções 2 ou 3 e fez ele mesmo o lançamento, que se veio a revelar o cesto da vitória.


KNICKS: reposição de bola na linha lateral do lado direito, com os 5 jogadores sem saber o que fazer e incertos das posições que devem ocupar e das movimentações que vão fazer.



O Calderon não sabe para que lado ir, o Lance Thomas não sabe se há-de bloquear o Calderon ou o Porzingis e acaba por não bloquear nenhum, o espanhol esboça um corte para o canto, o letão não faz nada e, sem fazerem qualquer bloqueio ou movimentação, Carmelo acaba por abrir para fora da linha de três pontos.


Carmelo ganha posição de costas para o cesto a dois metros da linha, recebe a bola numa posição desfavorável, dá um drible e lança um triplo em desespero com dois defensores em cima.



Diferença entre uma jogada bem desenhada e bem executada na última posse de bola e uma má jogada (ou uma ausência de jogada, para ser mais exacto) na última posse de bola? Com a primeira vais para casa com uma vitória, com a segunda levas um "L" contigo.

11.1.16

X's e O's - O Brad também é o maior


O Pop continua a ser o maior, mas Brad Stevens está a mostrar ser um bom herdeiro ao trono do melhor treinador.
Ontem, no final do 2º período, com 4.7 segundos para jogar, e reposição da bola na linha de fundo, podia ter feito aquilo que é feito 99% das vezes em situações semelhantes: colocado a bola nas mãos de um dos seus bases para que ele atravessasse o campo em drible, se aproximasse o mais que conseguisse do cesto e tentasse um lançamento em cima da buzina.

Mas o treinador dos Celtics demonstrou mais uma vez que uma jogada final não tem de ser uma jogada individual ou de isolamento e mostrou mais uma vez que é um dos melhores da liga em jogadas após desconto de tempo:



Que ia ser mais uma jogada de "bola no base e ele dribla pelo campo fora e lança" era o que os Grizzlies pensavam. Por isso é que, quando Isaiah Thomas recebeu o bloqueio de Kelly Olynyk no meio do campo para receber a bola, ...

Marc Gasol foi atrás dele para fazer 2x1 e encurralá-lo na linha lateral:

Enquanto isso, após o bloqueio, Olynyk seguiu pelo corredor direito para receber um bloqueio de Avery Bradley:

Como planeado, os Grizzlies fizeram o 2x1 a Isaiah Thomas e pararam-no junto à linha de meio campo. Só que isso era mesmo aquilo para que os Celtics estavam preparados. Evan Turner estava bem aberto na linha lateral para oferecer uma linha de passe a Thomas:



E Olynyk continuou o seu corte até ao garrafão para oferecer uma linha de passe a Turner e receber a bola completamente sozinho debaixo do cesto:


Estes dois pontos acabaram por não ser suficientes para evitar a derrota dos Celtics, mas é mais uma jogada para juntar a esta dos Blazers ou a esta dos Spurs como exemplos de como variar e fugir do convencional pode ser bom e trazer bons resultados. E de como Brad Stevens é bom.

8.12.15

Porque o Basquetebol é o melhor desporto do Mundo - razão nº 13437


Não vi em directo o jogo Grizzlies x Suns de anteontem. Mas sabia, quando estava a ver o jogo umas horas mais tarde,  que os Suns tinham perdido. Tentei não saber o resultado antes, mas numa espreitadela ao Twitter vi por acaso um tweet a dizer que tinham perdido. Mas não sabia por quantos nem como tinham saído derrotados.

Por isso, quando cheguei ao fim do jogo e este estava empatado a 93 com 2 segundos para jogar e posse de bola para os Suns, imaginei que tivesse ido a prolongamento. Pensei "os Suns tentaram e falharam um último lançamento, tivemos prolongamento e perderam aí. Não é possível terem perdido no tempo regulamentar."

Como estava enganado. Afinal, tivemos o final mais incrível da temporada. Afinal, Suns e Grizzlies relembraram-nos mais uma vez como o basquetebol pode ser imprevisível e espectacular e como, duma forma que não é possível em mais nenhum outro desporto, tanta coisa pode acontecer em tão pouco tempo.

Nesses 2.1 segundos, tivemos ainda tempo para três (3!) posses de bola. Deu tempo para Brandon Knight receber e perder a bola, para os Grizzlies marcarem dois pontos e para os Suns terem ainda uma última oportunidade para empatar:


E no cesto da vitória de Jeff Green tivemos uma execução perfeita da jogada desenhada por Dave Joerger.

A jogada começa com Courtney Lee a repor a bola, Marc Gasol a poste alto, na linha de lance livre, Zach Randolph a poste baixo do lado contrário da reposição, Mike Conley na linha de 3 pontos também do lado contrário e Jeff Green no canto do mesmo lado da reposição:



Conley corta para o lado da bola por cima de Gasol, aproveitando o bloqueio do espanhol, Zach Randolph corta pela linha de fundo também para o lado da bola e Jeff Green corta para o meio, ao encontro de Mike Conley:




Conley bloqueia então Jeff Green, ao mesmo tempo que Zach Randolph continua o seu corte para fora. Este corte de Randolph é decisivo na jogada, pois o extremo-poste dos Grizzlies é um bom lançador de meia distância, Jon Leuer não o pode deixar receber a bola ali e é obrigado a acompanhá-lo. Isso dá a Green preciosos décimos de segundo de vantagem e abre a linha de passe a Courtney Lee:

Courtney Lee contou no fim do jogo que tinha dito a Jeff Green que se visse o número do PJ Tucker atirava a bola lá para cima (ou seja, se visse as costas do jogador que estava a defender Green era sinal que este tinha ficado para trás no bloqueio e Green tinha a vantagem). E assim fez. Quando Leuer (que tinha ido com Randolph) vai ajudar e atrás do passe ja não chega a tempo de o interceptar ou de impedir o afundanço de Green:




Outros desportos podem proporcionar-nos finais espectaculares e emoções até ao último segundo. Mas mais nenhum nos consegue proporcionar um final destes e tantas reviravoltas em tão pouco tempo de jogo. É por coisas destas que we love this game.

22.11.15

Decidir bem ou decidir mal, eis a questão


Já o dissemos muitas vezes (por exemplo, aqui e aqui a propósito de LeBron; ou aqui a propósito de Kobe): ser decisivo no final de um jogo, ser um clutch player, não significa obrigatoriamente fazer o último lançamento. Nem sequer obrigatoriamente fazer a assistência para o último lançamento. Às vezes pode-se ser decisivo com um passe que leve a uma assistência (a chamada hockey assist). Ou até mesmo com um passe que inicie uma ação que leve a uma assistência e/ou a um bom lançamento. 

Como Reggie Jackson podia ter feito ontem e não fez (a partir dos 01:57):


Com 8 segundos para jogar e a perder por 2, os Pistons foram para a sua jogada predilecta desta temporada: um pick and roll alto entre Reggie Jackson e Andre Drummond:


Marcin Gortat fez 2x1 e defendeu a penetração de Reggie Jackson, Andre Drummond desfez para o cesto e ficou completamente sozinho dentro do garrafão. Primeira oportunidade para Jackson assistir para um colega em posição para um lançamento fácil (ou para uma assistência para Ilyasova, se Garret Temple rodasse defensivamente):

Mas o base dos Pistons continuou a driblar. Gortat não o largou e Drummond continuava sozinho, debaixo do cesto:

Só que Jackson continuou a driblar, até à linha de fundo. Gortat acompanhou-o até lá, Garrett Temple rodou defensivamente e ficou com Drummond. Jackson continuava com dois defensores consigo e Drummond tinha posição debaixo do cesto sobre um defensor mais baixo. Nova oportunidade para Jackson assistir para alguém em muito melhor posição:




Finalmente, tendo parado o drible e esgotadas as possibilidades de conseguir um lançamento, Jackson soltou a bola para Marcus Morris, num passe longo e que deu tempo a Otto Porter de rodar e fechar sobre o atirador. E Morris tentou um triplo contestado que nem ficou perto de entrar.

Não sabemos se o plano dos Pistons era tentar um triplo para ganhar o jogo ou tentar um lançamento de dois para empatar. Mas duas coisas sabemos: esta não era a jogada que Stan Van Gundy queria; e Reggie Jackson tentou ser o herói, procurou primeiro o seu lançamento e segurou a bola por muito mais tempo do que devia. Tivesse optado pela melhor jogada e podíamos estar aqui a fazer um post sobre a jogada que deu a vitória aos Pistons.

Como já dissemos antes, mais importante do que ser um clutch shooter é ser um clutch player. E isso significa jogar bem nos momentos decisivos. E jogar bem significa ler o jogo e tomar a melhor decisão para a equipa naquele momento. Ser clutch não é tentar ser herói à força. É fazer a jogada certa.

4.2.15

X's e O's - Warriors enganam muita gente


Apesar de, por culpa da sua dupla de atiradores no backcourt, os Warriors serem mais conhecidos pelo seu ataque do que pela sua defesa, a verdade é que até esta temporada a equipa não tinha um ataque muito criativo e era do outro lado do campo que estava o segredo do seu sucesso (em 2013-14, foram a quarta melhor defesa da liga e apenas o 12º ataque). 

Este ano estão ainda melhores na defesa e apesar da responsabilidade de Steve Kerr (e da sua equipa técnica) por essa evolução, ele está apenas a continuar o bom trabalho de Jackson nesse lado do campo. Não é, portanto, aí que Steve Kerr está a deixar a sua marca na equipa. Onde ele está a fazê-lo é no ataque, que está menos estático, mais imprevisível e com soluções mais variadas.

E que tem jogadas engenhosas e criativas como esta. Uma reposição de bola na linha de fundo que de tão simples que é, é quase inacreditável. Mas é exactamente por ser tão simples que é tão boa. 

Quando uma equipa repõe a bola na linha de fundo, tem de repor de um dos lados da tabela. Com a tabela e os defensores pelo meio o jogador que repõe a bola não tem normalmente ângulo nem linha de passe para o lado contrário e, por isso, nenhuma equipa faz esse passe para o lado contrário. A bola é passada quase sempre (para não dizer sempre) para o lado do campo onde é feita a reposição.

É o que os defensores esperam nesta situação, com três Warriors desse lado do campo, preparados para fazer bloqueios e cortes para libertar um deles, e o quarto Warrior (Justin Holiday, neste caso) no canto do lado contrário:





Os três jogadores do lado da bola iniciam a ação:



E enquanto isso acontece, o que os Warriors fazem é muito mais simples: um passe de peito para Holiday. O seu defensor está em posição de ajuda, virado para o campo e quando se apercebe no passe nas suas costas já é tarde demais para impedir o lançamento:


Toda a jogada é baseada numa premissa muito simples: passar para o único sítio para onde a defesa pensa que não vão passar. O defensor do lado contrário da bola, que está em posição de ajuda e à espera que a bola entre do lado forte (e posicionado de acordo), é apanhado de surpresa e os Warriors conseguem, com uma facilidade estonteante, uma situação de lançamento sem oposição.

Tão simples e tão boa. E fica ainda melhor quando a vemos uma e outra vez e nos apercebemos como já a fizeram tantas vezes e já enganaram tanta gente com ela:


3.12.14

Mais disto, se faz favor - Clutch Lopez


O jogo está empatado a 4'' do fim e a tua equipa precisa de um cesto para ganhar. Tens Damian Lillard, Wes Matthews, Nicolas Batum, LaMarcus Aldridge e Robin Lopez em campo. Para qual deles desenhas a jogada para o último lançamento? Para Lillard? Para Aldridge? Para Matthews? Não, para Robin Lopez, claro:


Que a bola ia para Lillard, para Mathews ou para Aldridge foi o que os Nuggets pensaram. Mas o treinador dos Blazers surpreendeu e foi para o jogador menos provável dos quatro que estavam dentro de campo (Batum estava a repor).

A jogada foi muito, muito simples. Tão simples que é quase embaraçosa. Começou com os quatro jogadores de campo dispostos nos cantos da área restritiva:



Lillard e Matthews abriram para os cantos do campo e Aldridge, depois de ameaçar que ia receber um bloqueio de Lopez, subiu para o topo do garrafão:

Aldridge recebeu a bola no topo do garrafão e neste momento os Nuggets deviam pensar que ele ia jogar 1x1 e tentar o lançamento. Só que enquanto os defensores dos Nuggets pensavam isso (e porque pensavam isso), Robin Lopez conseguiu estabelecer posição bem dentro do garrafão, mesmo debaixo do cesto, receber a assistência de Alrdridge e marcar um cesto fácil:


Não fizeram um único bloqueio (!), toda a jogada foi feita só com cortes e movimentação dos jogadores. Foi uma combinação muito simples, mas que surpreendeu pelo jogador escolhido para finalizar (o menos dotado ofensivamente de todos).

Terry Stotts pensou fora da caixa e compensou. Na semana passada, os Spurs já nos tinham dado um exemplo de uma jogada colectiva no final do jogo ao invés de uma jogada de isolamento e agora os Blazers dão-nos outro exemplo de uma jogada simples, mas que foge do convencional e do esperado naquela situação e que surpreende, por isso, a equipa adversária.

Como os Spurs na outra jogada e os Blazers nesta demonstram, variar é bom e traz bons resultados. Portanto, treinadores da NBA, mais disso, se faz favor.

22.11.14

Mais disto, se faz favor


No jogo da passada quinta feira com os Cavs, com 34 segundos para jogar, os Spurs ganhavam por um e tinham a posse de bola. Posse de bola, escusado será dizer, decisiva e que tinham de concretizar. Ora nessa situação, o que fazem as equipas da NBA 99% das vezes? Uma jogada de isolamento e 1x1 (a partir do topo do garrafão, normalmente). E o que fizeram os Spurs?

A princípio parecia que iam fazer isso mesmo, com Manu Ginobili a driblar no meio do campo, a gastar o tempo e, aparentemente, a esperar pelo fim dos 24 segundos para então penetrar:

Mas não fizeram isso. Tim Duncan subiu até ao topo do garrafão, Tony Parker abriu para fora da linha de três pontos e fizeram um "corte à UCLA". Ginobili passou a bola a Parker, passou pelo bloqueio de Duncan e cortou:


E agora parecia que iam para um 2x2. Ginobili continuava o corte, aclarava a seguir ao bloqueio e Duncan podia fazer um pick and roll lateral com Parker. Mas também não fizeram isso. 
Enquanto Ginobili cortava, Parker passou para Duncan na posição de poste alto...

e este passou imediatamente para Ginobili que estava na frente do seu defensor (Joe Harris, em parte por não estar à espera desse passe, em parte por ter defendido o corte e a primeira linha passe de Parker, perdeu a posição para esta segunda linha de passe) e o argentino recebeu a bola debaixo do cesto (com a movimentação do lado contrário - um bloqueio entre Diaw e Leonard - a manter os defensores dessa lado ocupados e o meio do campo livre):



(podem ver a jogada a partir do 1:53)

Primeiro parecia que iam para a jogada predilecta dos treinadores da NBA nos finais de períodos e de jogos, com um isolamento de Manu Ginobili, depois para a segunda predilecta, um pick and roll, e acabaram por fazer uma variação do "UCLA cut". Uma combinação simples, mas eficaz entre três jogadores que apanhou a defesa dos Cavs de surpresa e resultou na perfeição.

O que nos leva à pergunta: porque não fazem as equipas da NBA mais vezes isto? Porque não recorrem mais vezes a jogadas desenhadas e colectivas no final dos jogos? Se o fazem durante todo o jogo, porque recorrem sempre a jogadas individuais nestas situações?

Não estamos a dizer para deixarem de o fazer ou para nunca o fazerem. Porque é difícil parar um jogador talentoso no 1x1 e uma super-estrela super-talentosa numa jogada de isolamento pode ser muitas vezes a melhor chance que têm de ganhar o jogo. Mas não é sempre.
E, para além disso, se o fizerem sempre, torna-se previsível e menos eficaz. Como os Spurs demonstraram, variar é bom e traz bons resultados. Treinadores da NBA, mais disto no fim dos jogos, se faz favor.

30.5.14

Uma reacção do tamanho do Texas


De volta a casa, depois de perderem os dois jogos em Oklahoma e deixarem os Thunder empatar a série, os Spurs estavam encostados à parede e se queriam evitar uma reviravolta como a que aconteceu na final de  conferência de 2012, impunha-se uma reacção à altura. E uma reacção à altura foi exactamente o que os Spurs tiveram.

Gregg Popovich, que é provavelmente o melhor treinador da liga a fazer ajustes durante o decorrer duma série e durante o decorrer do próprio jogo, voltou ontem a não deixar os créditos por mãos alheias. Pop fez três ajustes que foram decisivos neste jogo (e, quem sabe, na série):


- alterou o cinco
alterou o cinco inicial e o cinco que alinhou durante a maior parte do jogo. Começou o jogo com Matt Bonner em vez de Tiago Splitter e, apesar de Bonner nem ter feito um bom jogo (e não ter acertado qualquer triplo), a sua presença em campo obrigou Ibaka a defender mais longe do cesto e abriu espaço para os Spurs atacarem a área restritiva. Com Ibaka a não poder dar a Bonner o espaço que dá a Splitter (e ter de vir de mais longe para a ajuda), houve mais espaço para penetrações, cortes e post-ups. 
Esse plano de jogar com quatro jogadores abertos e apenas um jogador interior (Duncan e Splitter nunca jogaram juntos neste jogo) manteve-se durante o resto do jogo com Boris Diaw, que, este sim, fez um óptimo jogo, acertou um par de triplos e manteve a defesa dos Thunder mais aberta. 

- pôs Kawhi Leonard a defender Westbrook
Pop baralhou as cartas também na defesa. Colocou Kawhi Leonard em Russell Westbrook e Danny Green em Kevin Durant. Contra Leonard, mais alto e igualmente atlético, o base dos Thunder teve mais dificuldades em penetrar (marcou apenas 2 lançamentos na área restritiva) e não andou à solta pela defesa dos Spurs. Teve mais lançamentos contestados e teve de batalhar muito mais para conseguir lançamentos e pontos.
E com Durant, Pop optou pela estratégia que Grizzlies e Clippers já tinham feito com sucesso: um defensor mais pequeno, que se cola a Durant e coloca por baixo dele para lhe retirar o drible.
É claro que com jogadores do nível destes dois, a questão não é pará-los (porque isso é impossível) mas sim limitá-los. E ontem os Spurs conseguiram-no. Protegeram melhor a área restritiva e conseguiram manter Durant e Westbrook no perímetro na maior parte do jogo.

- envolveu um terceiro jogador no pick and roll
com Bonner e Diaw a jogarem abertos, houve mais espaço para Tony Parker e Manu Ginobili operarem nos pick and rolls e atacarem o cesto. Os bloqueadores também abriram mais cedo dos bloqueios (fizeram short rolls) para dar imediatamente (e antes do seu defensor recuperar) uma linha de passe ao jogador com bola. Mas, para ajudar a uma maior eficiência dessa movimentação, Pop arranjou ainda uma terceira opção.
Colocou um jogador aberto no topo, do lado contrário, como válvula de escape do pick and roll. Quando Parker e Ginobili não conseguiam penetrar ou assistir (ou quando vinha a ajuda do lado contrário), passaram muitas vezes para esse jogador (que podia lançar, continuar  a jogada do lado contrário ou voltar a passar para o jogador que tinha feito o bloqueio). Foi uma triangulação que resultou muitas vezes no ataque dos Spurs:

Aqui, Tim Duncan desfaz rapidamente do bloqueio para receber o passe de Ginobili. E Diaw estava lá, aberto no lado contrário, para dar essa segunda linha de passe e terceira opção ofensiva

Mais uma vez, com Duncan a desfazer mais rápido do bloqueio (antes do seu defensor, que deu a ajuda no bloqueio, ter tempo de recuperar) e com o apoio de Bellinelli do lado contrário



Popovich foi certeiro nos ajustes que fez. Nenhum deles mudou o jogo por si só, mas todos juntos fizeram uma grande diferença. Mas não foram só os ajustes de Pop que foram decisivos. Os jogadores dos Spurs corresponderam e tiveram também uma reacção à altura da ocasião.

Foram mais agressivos e activos (tanto na defesa como no ataque), atacaram mais o cesto, movimentaram melhor a bola, movimentaram-se melhor sem bola, cuidaram melhor da bola (apenas 12 turnovers) e acertaram os lançamentos (51% em lançamentos de campo; 13 em 26 de 3pts). Os ajustes de Pop foram metade da diferença neste jogo. A outra metade foi a execução dos jogadores, que, basicamente, fizeram tudo melhor do que nos dois jogos anteriores.

Tudo somado, o resultado foi uma noite quase perfeita para os Spurs. Pop delineou bem o plano, os jogadores executaram-no na perfeição e os Spurs reagiram como se impunha. Em grande.

29.5.14

Passar ou não passar


Aqui vamos nós. Mais uma vez.
Heat perdem por 2, com 10'' para jogar. LeBron James tem a bola no topo do garrafão, com Paul George a defendê-lo. LeBron entra para o cesto... Hibbert vem à ajuda... LeBron assiste para Chris Bosh no canto e... chovem críticas a LeBron por ter passado a bola e não ter feito o lançamento final!


LeBron fez o mesmo num jogo contra os Utah Jazz, em 2012, e escrevemos nessa altura o que pensávamos sobre a sua decisão. E podíamos passar esse texto a papel químico para dizermos o que pensamos desta decisão. É só alterar os nomes, ajustar as posições em campo e esse texto serve para defender a decisão de LeBron no final do jogo de ontem.

Perguntamos o mesmo que perguntámos dessa vez: desde quando é que tomar uma decisão certa é criticável? LeBron atraiu a ajuda, tinha dois defensores sobre ele e fez o mais acertado: assistiu Bosh, que estava sozinho, em boa posição e é um bom lançador daquela posição. 

O que era melhor? Forçar um lançamento com um dos melhores defensores exteriores da liga e um dos melhores protectores do cesto da liga (se não o melhor) em cima dele? Ou assistir para um colega sozinho e com um lançamento com mais hipóteses de sucesso?



Ninguém diz que Michael Jordan não assumiu a decisão do jogo ou tomou uma má decisão quando assistiu John Paxson para o cesto da vitória contra os Suns e Steve Kerr para o cesto da vitória contra os Jazz, pois não? (podem ver esses dois cestos no outro texto)

Como afirmámos nesse texto, "Mais importante que ser um clutch shooter é ser um clutch player. E isso significa jogar bem nos momentos decisivos. E jogar bem significa ler o jogo e tomar a melhor decisão para a equipa naquele momento. Ser o herói não tem de ser marcar o último cesto. Embora essa seja uma ideia alimentada pelos meios de comunicação (principalmente os americanos), é uma ideia errada. Às vezes ser o herói é fazer o passe certo para um companheiro de equipa em melhor posição. Forçar um lançamento com dois ou três defensores em cima não é heroismo, é apenas uma má decisão. E a de Lebron esta noite foi boa. A única coisa que correu mal naquela jogada foi Haslem (Bosh) ter falhado o lançamento. Tivesse marcado e não estaríamos a ter esta discussão."

26.5.14

A diferença que um Ibaka faz


Já o tínhamos dito na nossa análise e previsão para esta série: Serge Ibaka é fundamental para esta equipa de Oklahoma. E, se dúvidas havia, ontem  foi a prova provada disso. Os Thunder com ele e os Thunder sem ele são duas equipas completamente diferentes.

O hispano-congolês traz coisas à equipa que mais nenhum jogador dos Thunder traz. Nenhum dos jogadores interiores de OKC é capaz de lançar de meia (e longa) distância como ele. Nenhum dos bigs de OKC consegue sair do pick and roll e abrir para lançamento como ele. Ontem lá estiveram esses lançamentos de meia distância (4 em 5) a aproveitar as ajudas defensivas sobre as penetrações de Durant e Westbrook e a dar uma fundamental terceira opção ofensiva.

Mas, por muito importante que Air Congo seja no ataque, é na defesa que não passam sem ele. A protecção do cesto (tanto a partir do lado da bola, como do lado contrário), a capacidade de conter o drible dos bases adversários nos pick and rolls e a capacidade de recuperação quando os bases o atacam em drible é algo que mais nenhum jogador interior de OKC é capaz de fazer sequer perto do seu nível.

Como fica demonstrado nestas duas jogadas (a partir dos 1'14''):


Ibaka tem a velocidade e mobilidade para sair a Tony Parker no pick and roll, conter o drible do base dos Spurs, impedir a penetração e dar tempo a Westbrook para recuperar:

Quando Parker o ataca em drible, tem velocidade para o acompanhar:

E recuperar a tempo de impedir o lançamento (neste caso, impediu; quando não impede, consegue, pelo menos dificultá-lo bastante):

E tem velocidade para, partindo do lado contrário da bola, vir ajudar e fechar o meio do campo e chegar a tempo de desarmar o lançamento de Danny Green:

Tony Parker, que tinha uma média de 7 penetrações no jogo 1 e 2 , concretizou apenas uma neste jogo. E os Spurs, que tinham marcado 120 pontos na área restritiva nos dois 1ºs jogos (66 no jogo 1 e 54 no jogo 2), marcaram apenas 40 ontem. No jogo 1 e 2 tiveram 76% de concretização na área restritiva. Ontem, 48%. Com Ibaka, os Thunder são outra equipa. E esta é outra série.