12.8.11

Era Uma Vez a NBA: os anos 60


Se a década de 50 foi de afirmação da NBA como a melhor liga de basquetebol dos Estados Unidos e de evolução do jogo para o formato moderno, a década de 60 foi aquela onde a NBA explodiu a nível técnico. Foi a época dos recordes (individuais e colectivos) e das temporadas individuais históricas.


No início da década, duas das equipas mais vitoriosas mudaram-se para cidades e mercados maiores (os Lakers de Minneapolis para Los Angeles e os Warriors de Philadelphia para San Francisco) e a liga ganhou uma dimensão verdadeiramente nacional. Estas duas equipas tinham ganho, entre si, 7 dos primeiros 10 títulos e continuaram a lutar pelos primeiros lugares nesta década com jogadores como Wilt Chamberlain, Elgin Baylor, Jerry West, Nate Thurmond e Rick Barry.
Nestes anos 60 assistimos também ao nascimento da maior rivalidade da história da NBA: Lakers e Celtics. Ao longo destes 10 anos, as duas equipas encontraram-se nas Finais por seis vezes. Infelizmente para os Lakers, sempre com a vitória a sorrir aos Celtics.

E os verdes de Boston foram a equipa da década. Liderados por aquele que é considerado um dos melhores postes de sempre (o melhor de sempre para muitos), Bill Russel, dominaram a liga como nenhuma equipa tinha feito até ali (e irá alguma vez fazer). O seu domínio tinha já começado no final dos anos 50, com a conquista do campeonato em 1959, e estendeu-se até 1969. Nessas 11 temporadas os Celtics ganharam o título 10 (!) vezes.
Entre 59 e 66 a equipa de Boston ganhou oito títulos consecutivos (um recorde da NBA e que muito dificilmente será alguma vez batido) e apenas os Philadelphia 76ers, em 66-67, conseguiram impedir que ganhassem o campeonato em todos os anos da década.

E foi preciso uma temporada histórica dos Sixers para o impedir. Nessa temporada de 66-67, a equipa de Philadelphia, liderada por outros dos melhores postes de todos os tempos (o melhor para muitos também), Wilt Chamberlain, estabeleceu um recorde de vitórias na temporada regular que durou até 1996: 69-13. Conseguiram finalmente ultrapassar os Celtics na final da conferência Este (na altura era ainda designada por Eastern Division), 4-1, e venceram depois os Warriors nas Finais, 4-2.

Bem, e o quadro dos campeões da década é fácil de imaginar, mas aqui ficam todos os finalistas:

(a amarelo a equipa campeã e a cruz indica o melhor recorde da temporada regular)


E se os recordes colectivos alcançados nos anos 60 foram impressionantes, que dizer dos individuais? Esta é a década do jogo dos 100 pontos de Chamberlain, dos 50.4 pts e 25.7 res de média numa temporada, também de Chamberlain (em 61-62; a melhor de 9 temporadas impressionantes, com médias sempre acima dos 30 pts e 20 res), do triplo-duplo de média numa temporada de Oscar Robertson (30.8 pts, 12.5 res e 11.4 ast, em 61-62; a primeira e única vez que tal feito foi conseguido) e do MVP das Finais de 69 para Jerry West (a única vez que o MVP foi para um jogador da equipa perdedora).


Alguns dos melhores jogadores da história da NBA jogaram nesta década e a sua enorme evolução técnica aliada a um estilo de jogo mais aberto da época, contribuiu para estes recordes quase inimagináveis hoje em dia. Eram jogadores extraordinários sem concorrência à altura. E desses, os cinco melhores foram:

Oscar Robertson - guard
Jerry West - shooting guard
Elgin Baylor - forward
Bill Russell - center
Wilt Chamberlain - center

(No melhor cinco desta década tivemos de optar por um alinhamento diferente do habitual, com dois postes, pois é impossível deixar Russell ou Chamberlain de fora. Os dois melhores postes de sempre tinham de entrar neste cinco e como um, Russell, dominava completamente na defesa e o outro, Chamberlain, dominava completamente no ataque, seria um frontcourt compatível. Bem, seria o melhor frontcourt de todos os tempos. Era como juntar o Luke Skywalker com o Darth Vader. A galáxia seria deles.)

10.8.11

Era Uma Vez a NBA: os anos 50


(Continuando a responder às vossas questões e sugestões, o João Lemos sugere debatermos os melhores 5's de cada década. Como este é um tema que exige a devida contextualização, vamos fazer mais do que isso. Vamos recordar e resumir a história de cada uma das décadas, apresentando no final os cinco melhores jogadores desses dez anos. Já fizemos aqui um artigo sobre a origem da liga e a sua época de estreia em 46-47. Continuemos então a história.)


Depois da temporada inaugural de 46-47, as duas épocas seguintes foram anos que estabeleceram os alicerces do jogo e lançaram as bases da futura NBA, mas que ainda tinham pouco que ver com o jogo como o conhecemos hoje. A recém-criada liga era ainda designada por Basketball Association of America (BAA) e conquistava aos poucos o seu espaço junto do público americano. Mas não se destacava ainda das outras ligas existentes, era apenas uma das ligas de basquetebol dos Estados Unidos. Isso estava, no entanto, prestes a mudar.

Em 1949, a BAA fundiu-se com a National Basketball League e adoptou a designação de National Basketball Association. Nascia oficialmente a NBA.

Coincidentemente, nesses anos de 49 e 50 a recém-nascida liga deu as boas vindas a nomes que mudaram a face da mesma e do jogo de basquetebol. Jogadores como Bob Cousy, Paul Arizin, Bill Sharman ou Dolph Schayes juntaram-se aos já estabelecidos George Mikan e Joe Fulks e começaram a moldar o jogo nos contornos que conhecemos hoje.


Na forma como definimos hoje a posição, Bob Cousy (que fez ontem 83 anos), dos Celtics, foi o primeiro verdadeiro point guard. Introduziu um controlo de bola e habilidade de passe únicos para a altura. O "Mr. Basketball" foi o melhor organizador de jogo e distribuidor da sua época e foi o líder de assistências durante 8 temporadas consecutivas.

Paul Arizin, dos Philadelphia Warriors, introduziu o lançamento em suspensão (jump shot). Naquela época o lançamento era afectuado com as duas mãos e os pés no chão (algo semelhante aos lançamentos actuais no corfebol) e Arizin foi um dos pioneiros do lançamento em suspensão com uma mão (aquele que é hoje praticado por todos os jogadores). Foi o melhor marcador duas vezes e teve uma média superior a 20 pts durante 9 temporadas consecutivas.

Bob Pettit (que entrou na liga em 54), dos St. Louis Hawks, e Dolph Schayes, dos Syracuse Nationals, foram jogadores que definiram a posição de power forward. Bons ressaltadores e bons jogadores interiores, capazes de jogar de costas para o cesto, mas também capazes de encará-lo e lançar de frente para o mesmo.

E George Mikan, dos Lakers, definiu a posição de poste. Foi o pioneiro do poste moderno. Com 2,08m (o maior jogador da liga na época), dominou o interior durante toda a sua carreira, aperfeiçoou a arte do ressalto, do lançamento em gancho e dos desarmes de lançamento. Liderou os Minneapolis Lakers a cinco títulos e foi verdadeiramente um dos jogadores que mudou o jogo. Foi por sua causa que a largura do garrafão foi aumentada.

Para além do grande desenvolvimento técnico que a NBA conheceu nesta década, também foram introduzidas regras que definiram o jogo de basquetebol moderno. E nenhuma mudou mais o jogo que a regra dos 24 segundos.

Depois dum horrível resultado final de 18-19 num jogo em 1953, o dono dos Syracuse Royals, Danny Biasone, estava determinado em melhorar o espectáculo para os fãs e contrariar a táctica, usada por muitas equipas, de trocar a bola indefinidamente no ataque para empatar tempo.
Biasone sugeriu a criação dum limite de tempo para o ataque (chegaram aos 24 segundos dividindo o número de segundos num jogo - 2880 - pelo número médio de lançamentos num jogo - 120) e os restantes donos aceitaram experimentar. E assim em 1954, foi criado o relógio dos 24 segundos.


Nessa temporada de 54-55 a média de pontos subiu quase 15 pontos por jogo (de 79 pts para 93 pts) e o basquetebol tornou-se um jogo mais rápido e mais espectacular.

E para a espectacularidade e popularidade do jogo contribuiu também outra criação da liga nos anos 50: o All Star Game. O primeiro All Star Game foi realizado em 1951, fruto da ideia de Haskell Cohen, relações públicas da liga, de promover o campeonato da NBA (para saber mais, podem ver aqui o artigo que escrevi para o Planeta basket sobre a história do All Star Game).

Houve ainda mais uma inovação nos anos 50, esta cultural: foi quando a NBA aboliu a barreira da cor e permitiu a entrada de atletas negros (pode parecer ridículo agora, mas temos de nos lembrar que eram outros tempos e a segregação racial subsistiu em alguns estados americanos até aos anos 60).

Com todas estas inovações, a década de 50 foi um período de afirmação e transformação. Afirmação da NBA como a liga que contribuiu mais para a evolução do jogo e como a melhor liga de basquetebol dos Estados Unidos. E o início da transformação do jogo de basquetebol no jogo que temos hoje.

Para fechar a história desta década pioneira, fiquem com a lista das Finais...

(imagem Wikipédia; a amarelo temos a equipa campeã e as cruzes indicam que a equipa teve o melhor recorde da temporada regular)

E, finalmente, o melhor cinco da década:

Bob Cousy - guard
Bill Sharman - guard
Paul Arizin - forward
Bob Pettit - forward
George Mikan - center

8.8.11

Ganhar ou formar?


Ainda a propósito do nosso artigo sobre a formação de jogadores, acaba de ser editado um livro que levanta outra questão muito importante sobre o tema. Embora o nosso artigo incida na problemática da formação em Portugal e este livro seja sobre uma realidade da formação nos Estados Unidos, levanta uma questão que, embora numa escala e contornos diferentes, acontece também no nosso país.

Em Play Their Hearts Out, o jornalista da Sports Illustrated George Dohrmann narra os oito anos que passou a acompanhar os Inland Stars, uma equipa de miúdos do Sul da Califórnia (desde que eles tinham 10 anos e começaram a jogar nas ligas infantis, até aos 18 anos e ao fim do liceu) e o seu pouco escrupuloso treinador.


Joe Keller era um treinador ambicioso, mas com pouca formação, que tinha o objectivo de descobrir o próximo Lebron James e, com isso, tornar-se rico e famoso. Em 2000, numa conversa casual com Dohrmann, Keller (que descobriu Tyson Chandler e perdeu-o para treinadores mais experimentados) disse ao jornalista que tinha juntado um grupo de miúdos que viriam a ser melhores que Chandler. Sedento de fama, Keller deu acesso total a Dohrmann e este passou os oito anos seguintes a seguir a evolução destes pequenos jogadores.

E ao longo desse tempo, o que vemos é um treinador que coloca as vitórias acima do ensino, marcas de ténis que disputam miúdos a partir de idades tão precoces como os 10 anos, olheiros de liceu e universidades a lutar pelos melhores talentos e miúdos sujeitos a pressões e expectativas irrealistas e sufocantes.

É claro que a realidade portuguesa pouco ou nada tem a ver com esta. Ninguém fica rico por descobrir um talento e não temos miúdos de 13 e 14 anos a assinar contratos com marcas desportivas. Mas, independentemente da conjuntura, a questão profunda por detrás é a mesma. Seja à escala dos milhões americanos ou à nossa escala, este erro de colocar os resultados e o reconhecimento acima do ensino do jogo é um dos mais comuns e frequentes.

Vejam este exemplo: para atrair a atenção (e os dólares) das marcas desportivas, Keller precisa que os Inland Stars vençam o título nacional de sub-13 da AAU. Por isso, os seus jogos são questões de vida ou morte, com Keller a berrar com os miúdos incessantemente, a gritar em todas as jogadas, desesperado por ganhar e impressionar as pessoas que estão a ver.

Quantas vezes não viram isto acontecer cá? Se costumam assistir a jogos de escalões de formação, já o viram muitas vezes, seguramente. Treinadores aos berros, miúdos pressionados para ganhar, pais enervados na bancada a insultar os árbitros, jogos de iniciados e até mesmo de minibasquete encarados como se fossem a final do campeonato do mundo.

Todos parecem esquecer-se (ou não se importar) que o objectivo da formação é ensinar o jogo. As vitórias são bem vindas, sim, e podem ser desejadas, mas apenas como consequência, nunca como objectivo. Daqui a 10 anos ninguém se vai lembrar quem ganhou o jogo x ou o título y. Aquilo que vai ficar é quantos desses jogadores chegaram ao fim da formação e quantos se tornaram jogadores (ou treinadores, ou árbitros ou dirigentes, porque não estamos apenas a formar jogadores, estamos a formar futuros agentes do jogo).

É um dos erros mais comuns na formação. Mas este não é exclusivo de Portugal. Este, infelizmente, parece que é um mal geral.

6.8.11

Goodies para os fãs


Hoje só temos coisas boas para vocês:

Querem dar uma alcunha ao novo pavilhão dos Oklahoma City Thunder? Vão aqui ao site do Daily Thunder e deixem as vossas sugestões. Bem, o pavilhão não é mesmo novo. Na verdade foi o pavilhão anterior que sofreu umas remodelações e mudou de patrocinador e nome. Mas como o novo nome (Chesapeake Energy Arena) não é nem fácil de dizer, nem apelativo, procuram-se alcunhas em Oklahoma.


E querem ter um quadro do Dennis Rodman, uma bicicleta, uma mesa de bilhar ou este belo stand up em vossa casa? É só irem aqui ao site da South Coast Auction, onde o Verme está a leiloar mobília, roupa e muitos objectos pessoais. Se por acaso quiserem uma casa de bonecas, ele tem também.


E esta actuação de James Dolan, o dono dos Knicks, com a sua banda de blues JD & The Straight Shot? A música chama-se Fix The Knicks e a letra... bem, é melhor ouvirem (podem lê-la aqui):


4.8.11

De...fense! De...fense!


Como já todos ouvimos dizer, o ataque ganha jogos e a defesa ganha campeonatos. Por isso, um anónimo (gostava de identificá-lo pelo nome, mas quem fez esta questão não se identificou; se ele se quiser acusar quando ler isto...) perguntava-nos se isso significa que Rick Carlisle teve os melhores esquemas defensivos deste ano. Na verdade, o que ele perguntou originalmente foi quais os esquemas defensivos que tiveram mais sucesso na NBA esta temporada, mas depois a questão evoluiu para aí. Vamos lá então.

Mas primeiro, e antes de falarmos especificamente dos esquemas defensivos, temos de ressalvar que os resultados duma equipa dependem dum sem número de factores e circunstâncias. Ataque, defesa, factores individuais, factores colectivos, factores de conjuntura, factores físicos, factores mentais, etc. O que ganha campeonatos não é a defesa, mas sim a combinação de todos esses factores e a soma de todas essas partes. Uma equipa pode ter a melhor defesa e um ataque mau. Ou um ataque imparável, mas uma defesa má. Ou jogadores que atacam bem e defendem bem, mas que depois falham em momentos chave.
Não se ganha sem uma boa defesa e ter a melhor ajuda muito, mas isso só não chega (veja-se o exemplo dos Bobcats e dos Bucks que tiveram boas defesas, mas falharam noutras áreas).

Por isso, é a equipa que consegue a melhor combinação entre o ataque, a defesa, o rendimento individual dos jogadores, o seu rendimento em conjunto, os aspectos físicos e os aspectos psicológicos aquela que triunfa.


Depois, temos também de dizer que a própria defesa depende igualmente de vários factores (individuais, colectivos, conjunturais, físicos e psicológicos). Qualquer esquema é apenas um ponto de partida e depende da execução dos jogadores dentro de campo. Na teoria todos os esquemas são bons. A questão é quais os mais adequados para os jogadores que se tem na equipa e para as equipas que enfrentamos. E no papel, eles funcionam 100% das vezes. Mas depois vão ser executados por jogadores. Humanos. Que podem falhar.

Por isso, as melhores defesas são aquelas que têm os melhores esquemas, a melhor adequação destes aos jogadores que o treinador têm à sua disposição, a melhor adequação à equipas que vão enfrentar e a melhor execução.

Por isso, como esses factores dependem de equipa para equipa, é possível ter sucesso com esquemas diferentes. Mas apesar das diferenças, há principios comuns a todas as melhores defesas.

Nos principios comuns das defesas que tiveram mais sucesso este ano, podemos identificar a comunicação, a defesa do perímetro, a defesa do garrafão e do meio do campo, a defesa do jogador com bola, a defesa das linhas de passe e as ajudas e rotações defensivas.
Depois, dependendo dos jogadores que têm, cada equipa é mais forte nuns do que noutros e aposta mais nuns que noutros.

Vamos então ver como algumas das melhores equipas defensivas interpretavam estes princípios e em quais baseavam a sua defesa:

Os Bulls e os Celtics (não por acaso têm esquemas semelhantes, porque são obra do mesmo homem, Tom Thibodeau) apostam em sobrecarregar o lado da bola e tapar as linhas de passe. O objectivo é impedir as penetrações e obrigar as equipas a fazer lançamentos longos. Qualquer jogador que penetre vai ter vários jogadores entre ele e o cesto e muitos braços para tentar dificultar passes interiores. Para além disso, tentam impedir (ou dificultar ao máximo) as recepções dos jogadores interiores (que sao defendidos pela frente, muitas vezes). A bola pode rodar pelo perímetro, mas nunca pelo interior.

Já os Heat, como têm Wade e Lebron, apostam na pressão no perímetro. O objectivo é provocar turnovers. Quando a bola entra nos lados, os Heat tentam mantê-la aí ou provocar erros para iniciar contra-ataques com Wade e Lebron. Com defensores exteriores tão atléticos, tentam impedir as penetrações no 1x1 e as rotações e ajudas são o plano B. É um exemplo algo anormal duma boa defesa, onde os defensores exteriores conseguem compensar as deficiências e a falta de velocidade dos jogadores interiores nas rotações e ajudas.

Os Mavs, por sua vez, apostavam na diversidade. Com jogadores veteranos que perdiam a nível atlético para muitas equipas, apostavam na força do colectivo. O plano era levar os atacantes para a linha de fundo onde vinha sempre a ajuda de Chandler (ou Haywood ou Mahinmi). Também recorriam frequentemente à sua zona 2-3 (e foram das equipas que mais defenderam zona na NBA), para baralhar os ataques adversários e compensar desvantagens nos 1x1. Um aspecto curioso e uma adaptação específica de Rick Carlisle feita a pensar nos jogadores que tinha, era o facto de Nowitzki só trocar defensivamente quando o outro jogador era uma ameaça ofensiva menor e não o pudesse colocar em perigo de fazer falta. Se havia um bloqueio, por exemplo, dum jogador como Lebron James ou Kevin Durant ao alemão, não havia troca defensiva, para ele não ficar a defendê-los. Se o jogador que bloqueava era assim um Anthony ou um Sefolosha, então o alemão trocava.

Este tipo de defesa (sobrecarregar o meio, levar para a linha de fundo e fechar o caminho com o poste), é aquele que os Bucks (com Bogut) também faziam.
Enquanto outras equipas, como os Thunder, os Grizzlies e os Hornets, tinham uma mistura dos dois estilos: bons wing defenders (Sefolosha, Ariza e Tony Allen) e pressão no perímetro aliada à estratégia de levar para a linha de fundo, onde têm os postes para fechar o meio e contestar lançamentos (Perkins, Marc Gasol e Okafor).

Todas estas equipas encontraram sucesso com as suas defesas (umas mais que outras, claro) e foram das que melhor defenderam este ano. Para algumas isso traduziu-se vitórias e uma ida até às fases mais avançadas dos playoffs (até às Finais para duas delas e o título para uma), para outras não foi suficiente. Mas para nenhuma delas o problema esteve na defesa.

3.8.11

Quando pensávamos que não podia piorar


As negociações do novo CBA acabam de ter uma reviravolta. Para pior. A NBA entrou com um processo em tribunal e outro no Conselho Nacional de Relações Laborais (algo como o Tribunal do Trabalho lá do sítio) contra o Sindicato de Jogadores e as negociações parecem agora encaminhadas para uma fase azeda. As previsões dos que diziam que as coisas iam piorar antes de melhorar acabam de se concretizar.

À saida da reunião de ontem (2ªfeira), as declarações não auguravam muito de bom. O comissário David Stern estava pessimista e afirmou que estavam exactamente no mesmo ponto onde estavam há um mês. Derek Fisher também dizia que não havia nenhum progresso. Também ninguém esperava realmente que saísse algum progresso da reunião e já sabíamos que era apenas uma reunião preliminar para definir os próximos passos e uma possível estratégia para uma aproximação das partes. Mas também não esperavamos que hoje (3ªfeira) as coisas piorassem.

O objectivo da NBA com estes processos é, acima de tudo, preventivo. Como os jogadores andavam a ameaçar desertar do sindicato e interpôr uma acção nos tribunais contra a NBA, alegando que o lockout é ilegal, a liga antecipou-se e procura uma decisão do tribunal que diga que o lockout não viola nenhuma antitrust law (as leis americanas para a concorrência e para a justiça laboral). E quer também que o próprio tribunal reconheça que não pode intervir numa disputa laboral desta natureza. Basicamente a NBA quer retirar a possibilidade aos jogadores de usar essa jogada. Antes que eles o tentem, a NBA quer que o tribunal lhes diga já que eles não podem fazê-lo.


Em 98-99, no anterior lockout, a negociação foi sempre entre donos e jogadores e só chegaram a acordo em Janeiro. Nunca saiu da esfera das partes interessadas e demorou 6 meses. Agora que, entre acusações mútuas de má fé nas negociações, vai para os tribunais, promete não ter uma solução tão cedo. É claro que os tribunais nos Estados Unidos não são tão lentos como os portugueses, mas mesmo assim não eram as notícias que queríamos ouvir. Já temos a faixa de luto, mas se calhar vamos ter de acender uma velinha também.

1.8.11

Um português na NBA?


Como prometido, hoje começamos a série de artigos onde respondemos às vossas questões e sugestões. A primeira veio do R. Esteves (Ricardo?), que nos pedia para falar um pouco sobre o basquetebol de formação no nosso país. Este não é um tema directamente relacionado com a NBA, mas está ligado a uma pergunta que surge muitas vezes quando se fala da liga americana: quando vamos ter um jogador português a jogar na NBA?

Até agora o mais perto que estivemos de ter um português na melhor liga do mundo foi quando, no final dos anos 80, o Carlos Lisboa foi sondado para integrar o projecto duma nova equipa. Mas essa equipa nunca chegou a avançar e o sonho ficou por aí. Mais recentemente, em 2007, o João Gomes (Betinho) fez alguns training camps de Verão nalgumas equipas, mas não foi escolhido por nenhuma. E é só.


E não parece haver alguém que, nos tempos mais próximos, nos faça sonhar com essa possibilidade. É um panorama desolador, mas revelador da nossa realidade. Porque a verdade é que, salvo algum caso fora de série que surja por acaso, falta-nos muito para podermos pensar em ver um nome português num equipamento da NBA.

As causas de tal panorama são várias. Não há uma causa isolada ou sequer uma principal.
A primeira é cultural. Este é um país de futebol. É, de longe, o desporto com mais praticantes e mais público. E isso significa mais receitas e mais patrocínios. E isso siginifica mais dinheiro. E mais dinheiro significa mais meios e e melhores condições de trabalho.

A segunda é demográfica. Somos um país pequeno, com apenas 10 milhões de habitantes. Nove em cada 10 miúdos sonham em ser jogadores de futebol. As outras modalidades vão desviando alguns miúdos, mas não há uma base de recrutamento alargado. Apenas 5% dos praticantes nos escalões de formação chegam ao fim da mesma e a praticar o desporto escolhido no escalão sénior. Ora 5% de 300 mil (como no futebol) são 15 mil jogadores, enquanto que 5% de 25 mil (aproximadamente o número de praticantes de basquetebol federados) são apenas 1250.
E desses, pelas leis das probabilidades, apenas 1% são excepcionais. Ora, isso quer dizer que temos apenas a hipótese de ter uns 10 ou doze jogadores muito bons, enquanto no futebol essa hipótese sobe para 150.
Quantos mais jogadores, mais probabilidades de saírem mais jogadores bons. Nos Estados Unidos, por exemplo, com mais de 500.000 praticantes, a probabilidade de saírem muitos bons é muito maior.

A terceira, na sequência das anteriores, é de dimensão. Somos um país pequeno, com poucos praticantes de basquetebol, logo com uma liga pequena, com poucos recursos financeiros e poucas condições para fazer um trabalho profissional e continuado ao longo dos anos. Os projectos, salvo honrosas excepções, vivem apenas no imediato, sem olhar para o futuro a longo prazo.

Esses factores têm obrigatoriamente influência no trabalho de formação e tornam-no muito mais difícil. Depois no trabalho de formação propriamente dito também há problemas.
Contam-se pelos dedos das mãos os clubes em Potugal que investem na formação e fazem um bom trabalho na mesma. A formação é, regra geral, má. Há falta de formação dos treinadores e monitores. Na maioria dos clubes, trabalha-se mal e pouco.

Não quero com isto atacar os clubes. Muitas vezes, isso acontece por razões de que os clubes não têm culpa, como falta de condições, falta de dinheiro, etc. Muitos clubes fazem o melhor que podem, mas o facto é que isso é insuficiente (e os próprios clubes têm consciência disso). Pode não ser por vontade dos clubes, mas o facto é que a formação é fraca.

Portanto, acrescente-se isto aos factores anteriores e o panorama é grave: temos poucos praticantes e uma base de recrutamento reduzida. E depois ainda aproveitamos mal e trabalhamos mal os que temos.

Tome-se como exemplo o caso do Jonah Callenbach (apesar do nome estrangeiro é português; é filho de pais holandeses, mas nasceu no nosso país e é internacional pelas selecções jovens de Portugal), que começou a jogar no Estoril e está há 3 anos nos escalões de formação do Fuenlabrada, em Espanha. Em entrevista ao BasketPT, descreveu o seu plano de treinos semanal: dois treinos individuais de 1,5h e um de 1h; três treinos físicos de 1,5h; quatro treinos de equipa de 1,5h e um ou dois treinos com a equipa B sénior. São mais de 17 horas de treino por semana desde os seus 14 anos. Em Portugal, nem uma equipa da Liga treina tanto, quanto mais uma equipa de formação.

Por último, temos ainda a vontade dos próprios atletas. Nem todos os jogadores têm a mesma vontade de triunfar. É por isso que só alguns chegam ao topo. Só os que trabalham mais. E, pela selecção natural, a maioria fica pelo caminho. Este factor está também relacionado com as razões demográficas que falei anteriormente. É por isso que quanto mais praticantes, mais hipóteses de saírem mais jogadores bons. Porque só alguns conseguem. E só alguns querem o suficiente para lá chegar.

Dou-vos um exemplo concreto: fui treinador do Diogo Correia (que foi este ano foi campeão pelo Porto) no minibasquete. Nessa equipa havia pelo menos mais dois miúdos que tinham tanto ou mais talento natural que ele. Mas já nessa altura o Diogo tinha o objectivo de ser jogador de basquete. Sabia o que queria e sempre trabalhou para o conseguir. Os outros dois, que tinham tantas possiblidades como ele de se tornarem bons jogadores, nunca levaram o basquetebol tão a sério e não trabalharam tanto. O resultado está à vista.

O panorama da formação em Portugal é, como podem ver, pouco animador. É uma tempestade perfeita de factores que, todos juntos, nos colocam perante uma quase impossibilidade de produzir um jogador com nível para competir numa liga como a NBA. Infelizmente, acho que não vamos ver tão cedo um Silva, um Oliveira, um Santos ou um Gonçalves na parte de trás dum equipamento da NBA.