8.8.11

Ganhar ou formar?


Ainda a propósito do nosso artigo sobre a formação de jogadores, acaba de ser editado um livro que levanta outra questão muito importante sobre o tema. Embora o nosso artigo incida na problemática da formação em Portugal e este livro seja sobre uma realidade da formação nos Estados Unidos, levanta uma questão que, embora numa escala e contornos diferentes, acontece também no nosso país.

Em Play Their Hearts Out, o jornalista da Sports Illustrated George Dohrmann narra os oito anos que passou a acompanhar os Inland Stars, uma equipa de miúdos do Sul da Califórnia (desde que eles tinham 10 anos e começaram a jogar nas ligas infantis, até aos 18 anos e ao fim do liceu) e o seu pouco escrupuloso treinador.


Joe Keller era um treinador ambicioso, mas com pouca formação, que tinha o objectivo de descobrir o próximo Lebron James e, com isso, tornar-se rico e famoso. Em 2000, numa conversa casual com Dohrmann, Keller (que descobriu Tyson Chandler e perdeu-o para treinadores mais experimentados) disse ao jornalista que tinha juntado um grupo de miúdos que viriam a ser melhores que Chandler. Sedento de fama, Keller deu acesso total a Dohrmann e este passou os oito anos seguintes a seguir a evolução destes pequenos jogadores.

E ao longo desse tempo, o que vemos é um treinador que coloca as vitórias acima do ensino, marcas de ténis que disputam miúdos a partir de idades tão precoces como os 10 anos, olheiros de liceu e universidades a lutar pelos melhores talentos e miúdos sujeitos a pressões e expectativas irrealistas e sufocantes.

É claro que a realidade portuguesa pouco ou nada tem a ver com esta. Ninguém fica rico por descobrir um talento e não temos miúdos de 13 e 14 anos a assinar contratos com marcas desportivas. Mas, independentemente da conjuntura, a questão profunda por detrás é a mesma. Seja à escala dos milhões americanos ou à nossa escala, este erro de colocar os resultados e o reconhecimento acima do ensino do jogo é um dos mais comuns e frequentes.

Vejam este exemplo: para atrair a atenção (e os dólares) das marcas desportivas, Keller precisa que os Inland Stars vençam o título nacional de sub-13 da AAU. Por isso, os seus jogos são questões de vida ou morte, com Keller a berrar com os miúdos incessantemente, a gritar em todas as jogadas, desesperado por ganhar e impressionar as pessoas que estão a ver.

Quantas vezes não viram isto acontecer cá? Se costumam assistir a jogos de escalões de formação, já o viram muitas vezes, seguramente. Treinadores aos berros, miúdos pressionados para ganhar, pais enervados na bancada a insultar os árbitros, jogos de iniciados e até mesmo de minibasquete encarados como se fossem a final do campeonato do mundo.

Todos parecem esquecer-se (ou não se importar) que o objectivo da formação é ensinar o jogo. As vitórias são bem vindas, sim, e podem ser desejadas, mas apenas como consequência, nunca como objectivo. Daqui a 10 anos ninguém se vai lembrar quem ganhou o jogo x ou o título y. Aquilo que vai ficar é quantos desses jogadores chegaram ao fim da formação e quantos se tornaram jogadores (ou treinadores, ou árbitros ou dirigentes, porque não estamos apenas a formar jogadores, estamos a formar futuros agentes do jogo).

É um dos erros mais comuns na formação. Mas este não é exclusivo de Portugal. Este, infelizmente, parece que é um mal geral.

5 comentários:

  1. por acaso o frederico silva, tenista de 16 anos é patrocinado pela nike há uns 2 ou 3 anos.

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  2. sim mas o tenis e um desporto individual e casos como esse nao faltam.

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  3. Boas..

    Casos desses nos estados unidos acontecem muito..
    entre os 10 e os 15 são os pais os mais apontados.. dos 16 aos 18 os treinadores e durante toda a formação sao olheiros e agentes que rodeiam tudo o que começa a se destacar..
    a relidade é que apenas uns 25 ou 30 por ano chega realmente a "entrar" para a nba e fazer os Milhões.. os outros que entram no draft são muitas vezes descartados muito cedo..

    mas achar um destes miudos pode deixar muita gente rica.. muitos agentes dos jogadores começaram assim: conheces um miudo, ele evolui, começa a jogar com outros miudos famosos e os agentes começam a fazer parte ali do ciclo de amigos e de confianças.. mas isso dá pra muita historia ;)

    quanto á questao ganhar ou formar?
    é dificil convencer que aos mais novos que são bons se eles não vem resultados! 1º eles querem é jogar 2º querem ganhar! cabe aos treinadores forçarem a formaçao ali pelo meio..
    quanto aos clubes que podem realmente formar em portugal a resposta que esta a ser dada é ganhar! isto não por ser a escolha deles mas por ser sim a unica solução. não falo de minis e iniciados, pois qualquer clube sabe bem que aqui é formar formar e formar.. mas a partir dos cadetes os resultados contam, trazer os melhores jogadores é importante, competição é importante.. mas não digo que seja necessario ganhar a todo o custo, pois existem sempre dois pesos e duas medidas para este caso..

    se aparecerem muitos miudos com muito potencial, epa, deixem no ir para fora ou ponham ele em centros de alto rendimento, neste momento não temos clubes com disponibilidade para fazer esse tipo de treinos (17horas/semana, pensando na disponibilidade dos treinadores) com qualidade, por isso por enquanto: motivem nos e é dar o maximo que podemos nesse momento.

    e digo isto pq já tive(como treinador) que deixar jogadores irem para clubes melhores para poderem evoluir, obviamente os directores dos clubes puxam logo da carta dos direitos de formacao e tal.. mas entendi que naquele momento estariam melhor noutras maos, noutras condições..

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  4. Caro Mesou, não é díficil convencer os mais novos que o importante é aprender. Eles praticam aquilo que lhes é ensinado e se lhes for ensinado (não só com as palavras, mas também com as acções) e explicado que o objectivo principal é aprender a jogar, eles entendem isso perfeitamente.

    Os miudos são competitivos por natureza, mas isso não quer dizer que eles só querem ganhar. Eles querem isso apenas porque é isso que lhes é dito que é importante. Se a medida de sucesso que lhes damos são as vitórias então é isso que eles querem atingir. Mas se lhes dermos outras medidas para avaliar o seu sucesso e lhes traçarmos outros objectivos, eles, competitivos por natureza, vão querer atingir esses objectivos.
    E os treinadores não têm de forçar a formação ali pelo meio, apenas ser claros nos objectivos definidos.
    Porque formar não é so nos minis e iniciados, é nos cadetes, nos juniores, é em todos os escalões até chegar a seniores.

    Quanto aos resultados contarem, como digo no artigo, apenas contam como consequência da aprendizagem. Quando se faz a formação correcta de atletas e as vitórias significam que se trabalhou bem então estas são boas.
    Mas quando se prejudica a formação e fazem coisas contrárias à melhor formação só para ganhar, então essas vitórias não significam nada.

    Porque é fácil recorrer a estratégias nefastas à formação (como defesas zona em iniciados, especialização precoce de posições, etc) para conseguir vitórias. Mais dificil (mas melhor) é conseguir as vitórias, mas a fazer tudo dentro do correcto para a formação.

    Os resultados são importantes, mas só quando não prejudicam a formação. Se conseguirmos conciliar os resultados com a formação, óptimo. Se tivermos de escolher, a formação tem de vir sempre primeiro.

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  5. Concordo com o que dizes.. tinha lido metade do que tinhas escrito e ja tava pra escrever o que falast na outra metade, sobre as defesas e principalmente sobre a escolha que os treinadores devem fazer..

    eu não digo que como treinador/formador de jovens jogadores tenha alguma vez escolhido o ganhar sobre a formação e ja apliquei, tal como ja vi muitos adversarios a aplicar castigos a atletas que pura e simplesmente querem ignorar os fundamentos basicos e os ensinamentos dados para tentarem vencer ou ludibiar esquecendo a base a equipa mesmo prejudicando a vitoria da minha equipa(ou nos meus adversarios as deles) mas protejendo os atletas que efectivamente querem fazer as coisas correctamente.

    Eu acredito que muitos atletas captam a mensagem que devem ser bem formados, mas o problema não é os treinos o problema é o exemplo que se dá quando temos publico pois é nesses momentos que muitos atletas tendem a falhar aquilo que aprenderam e fazem tão bem nos treinos e é ai que muitos treinadores não pretendem abrir mao do ganhar pelo formar!

    eu sou novo nisto de treinar e dar exemplos, confio que os trabalharam comigo sabem bem o que eu quero e felizmente sempre tive colegas treinadores impecaveis. mas sabemos bem que nem sempre é assim e muitas vezes vencer um campeonato ou a qualificacao para uma fase seguinte é a ambicao de muita gente (pais e derigentes) e ai a formação e qualificação dos atletas tem que feita com muita habilidade do treinador

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