1.8.11

Um português na NBA?


Como prometido, hoje começamos a série de artigos onde respondemos às vossas questões e sugestões. A primeira veio do R. Esteves (Ricardo?), que nos pedia para falar um pouco sobre o basquetebol de formação no nosso país. Este não é um tema directamente relacionado com a NBA, mas está ligado a uma pergunta que surge muitas vezes quando se fala da liga americana: quando vamos ter um jogador português a jogar na NBA?

Até agora o mais perto que estivemos de ter um português na melhor liga do mundo foi quando, no final dos anos 80, o Carlos Lisboa foi sondado para integrar o projecto duma nova equipa. Mas essa equipa nunca chegou a avançar e o sonho ficou por aí. Mais recentemente, em 2007, o João Gomes (Betinho) fez alguns training camps de Verão nalgumas equipas, mas não foi escolhido por nenhuma. E é só.


E não parece haver alguém que, nos tempos mais próximos, nos faça sonhar com essa possibilidade. É um panorama desolador, mas revelador da nossa realidade. Porque a verdade é que, salvo algum caso fora de série que surja por acaso, falta-nos muito para podermos pensar em ver um nome português num equipamento da NBA.

As causas de tal panorama são várias. Não há uma causa isolada ou sequer uma principal.
A primeira é cultural. Este é um país de futebol. É, de longe, o desporto com mais praticantes e mais público. E isso significa mais receitas e mais patrocínios. E isso siginifica mais dinheiro. E mais dinheiro significa mais meios e e melhores condições de trabalho.

A segunda é demográfica. Somos um país pequeno, com apenas 10 milhões de habitantes. Nove em cada 10 miúdos sonham em ser jogadores de futebol. As outras modalidades vão desviando alguns miúdos, mas não há uma base de recrutamento alargado. Apenas 5% dos praticantes nos escalões de formação chegam ao fim da mesma e a praticar o desporto escolhido no escalão sénior. Ora 5% de 300 mil (como no futebol) são 15 mil jogadores, enquanto que 5% de 25 mil (aproximadamente o número de praticantes de basquetebol federados) são apenas 1250.
E desses, pelas leis das probabilidades, apenas 1% são excepcionais. Ora, isso quer dizer que temos apenas a hipótese de ter uns 10 ou doze jogadores muito bons, enquanto no futebol essa hipótese sobe para 150.
Quantos mais jogadores, mais probabilidades de saírem mais jogadores bons. Nos Estados Unidos, por exemplo, com mais de 500.000 praticantes, a probabilidade de saírem muitos bons é muito maior.

A terceira, na sequência das anteriores, é de dimensão. Somos um país pequeno, com poucos praticantes de basquetebol, logo com uma liga pequena, com poucos recursos financeiros e poucas condições para fazer um trabalho profissional e continuado ao longo dos anos. Os projectos, salvo honrosas excepções, vivem apenas no imediato, sem olhar para o futuro a longo prazo.

Esses factores têm obrigatoriamente influência no trabalho de formação e tornam-no muito mais difícil. Depois no trabalho de formação propriamente dito também há problemas.
Contam-se pelos dedos das mãos os clubes em Potugal que investem na formação e fazem um bom trabalho na mesma. A formação é, regra geral, má. Há falta de formação dos treinadores e monitores. Na maioria dos clubes, trabalha-se mal e pouco.

Não quero com isto atacar os clubes. Muitas vezes, isso acontece por razões de que os clubes não têm culpa, como falta de condições, falta de dinheiro, etc. Muitos clubes fazem o melhor que podem, mas o facto é que isso é insuficiente (e os próprios clubes têm consciência disso). Pode não ser por vontade dos clubes, mas o facto é que a formação é fraca.

Portanto, acrescente-se isto aos factores anteriores e o panorama é grave: temos poucos praticantes e uma base de recrutamento reduzida. E depois ainda aproveitamos mal e trabalhamos mal os que temos.

Tome-se como exemplo o caso do Jonah Callenbach (apesar do nome estrangeiro é português; é filho de pais holandeses, mas nasceu no nosso país e é internacional pelas selecções jovens de Portugal), que começou a jogar no Estoril e está há 3 anos nos escalões de formação do Fuenlabrada, em Espanha. Em entrevista ao BasketPT, descreveu o seu plano de treinos semanal: dois treinos individuais de 1,5h e um de 1h; três treinos físicos de 1,5h; quatro treinos de equipa de 1,5h e um ou dois treinos com a equipa B sénior. São mais de 17 horas de treino por semana desde os seus 14 anos. Em Portugal, nem uma equipa da Liga treina tanto, quanto mais uma equipa de formação.

Por último, temos ainda a vontade dos próprios atletas. Nem todos os jogadores têm a mesma vontade de triunfar. É por isso que só alguns chegam ao topo. Só os que trabalham mais. E, pela selecção natural, a maioria fica pelo caminho. Este factor está também relacionado com as razões demográficas que falei anteriormente. É por isso que quanto mais praticantes, mais hipóteses de saírem mais jogadores bons. Porque só alguns conseguem. E só alguns querem o suficiente para lá chegar.

Dou-vos um exemplo concreto: fui treinador do Diogo Correia (que foi este ano foi campeão pelo Porto) no minibasquete. Nessa equipa havia pelo menos mais dois miúdos que tinham tanto ou mais talento natural que ele. Mas já nessa altura o Diogo tinha o objectivo de ser jogador de basquete. Sabia o que queria e sempre trabalhou para o conseguir. Os outros dois, que tinham tantas possiblidades como ele de se tornarem bons jogadores, nunca levaram o basquetebol tão a sério e não trabalharam tanto. O resultado está à vista.

O panorama da formação em Portugal é, como podem ver, pouco animador. É uma tempestade perfeita de factores que, todos juntos, nos colocam perante uma quase impossibilidade de produzir um jogador com nível para competir numa liga como a NBA. Infelizmente, acho que não vamos ver tão cedo um Silva, um Oliveira, um Santos ou um Gonçalves na parte de trás dum equipamento da NBA.


18 comentários:

  1. é uma realidade triste mesmo. Portugal nao aposta nada no basquet e isso deixa qualquer amante deste desporto muito em baixo. por exemplo eu gostava de ir para um summer camp ou algo parecido, para aprender a jogar melhor ou até para receber conselhos de jogadores mais experientes. Acho que nesse sentido, os EUA estão muito acima de Portugal, porque oferecem oportunidades a um maior número de pessoas e os resultados estão a vista. Continua o bom trabalho! Excelente blog|

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  2. o que me chateia ainda mais é o talento desperdiçado. Soube ontem que o Pedro Rochete, jogador do Gaeirense, que marcou 26 pontos na final da CNB 1, ( muito provavelmente o melhor jogador da cnb 1 o ano passado, é jogador de liga, só para não dizer 5 inicial ...) esteve quase 10 anos sem jogar basket !!! Já tem 32 anos, mas ainda é um jogador fantástico, deu um bailinho ao minhava na taça de portugal contra o benfica. E o minhava está na selecção nacional. E um gajo fica a pensar : Onde é que este gajo podia ter ido ? LPB ? ACB ?

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  3. Boas!

    Muito bem escrito o post mais uma vez. Penso que ficou tudo explicado.

    Penso que realmente o factor "Cultura" é o que manda mais neste caso. Foi uma pena o Betinho não ter sido escolhido de facto. Lembro-me que na altura se falou imenso nisso.

    Acho que, a ir um jogador Português para a NBA, poderíamos ter um fenómeno parecido ao do Yao Ming, onde as pessoas seguiriam mais de perto o desporto e a sua popularidade poderia despoletar o aparecimento de uma maior base de praticantes.

    Saudações!

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  4. João Lemos02/08/11, 00:41

    Grande post e grandes verdades :) infelizmente muitos miúdos não dão o melhor pela modalidade tendo enormes potencialidades e também acontece haver muitas equipas que têm excelentes jogadores e que estes não conseguem chegar mais longe por não terem clubes e regiões em seu redor com condições financeiras e bons formadores para desenvolver as capacidades e o talento dos jogadores, principalmente quando são muito novos e estão a criar gosto pela modalidade.

    Saudações :)

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  5. Um Post muito bem escrito que só prova que o nosso país é um país de burros, onde só se liga ao futebol e não a outros desportos como o basket...

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  6. Boa noite. Queria tb acrescentar o facto de os míudos tb tem a escola, que lhes ocupa muito tempo, logo nunca daria para ter um treino semanal como aquele que descreveste do tal jogador que está em Espanha. Sobretudo o problema será sempre cultural em Portugal.
    Parabéns pelo blogue. Sigo-o desde a época passada. Força.

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  7. concordo com o carlos, uma criança/adolescente portuguesa nao tem hipotese de treinar tantas horas como um espanhol por muito que queira.
    A ecola em espanha começa mais tarde(9 horas se nao estou em erro) e acaba cerca de 2 horas mais cedo(2 da tarde) enquanto que aqui começa as 8:30 e acaba normalmente as 4.
    E isto explicasse pelas horas absurdas de almoço que teem(chegam a ser 2horas de almoço!!!).
    E se tivermos em conta que aqui nao ha um clube em cada esquina, a vontade ao fim do dia ja nao e tanta e tudo mais....

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  8. Olá, não sou Ricardo, sou Rodrigo xD
    Muito obrigado por ter feito este post, isto é uma coisa que se fala muito, sobre se valorizar mais o futebol neste país do que as outras modalidades (o que é uma estupidez), e este post fala sobre isto ao promenor e está muito bem explicado. É claro que temos em Portugal bons clubes de formação, como o C.A.Queluz, o Barreirense, o F.C.Porto, o Benfica, mas é obvio que não se pode comparar com Espanha ou os Estados Unidos...
    As coisas boas que existem na formação em portugal são os CAR (centro de alto rendimento), o CNT (centro nacional de treinos) e as Festas do basquetebol, em portimão, que é daí que saiem os bons jogadores.
    Mas quem sabe, um dia poderá aparecer um jogador que consiga alcançar os lugares mais altos no basket, e esperemos que isso aconteca :)

    Obrigado,
    Rodrigo Esteves

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  9. Obrigado eu, RODRIGO, pela sugestão! :)

    E alguns de vocês tocam em pontos interessantes:
    A questão da escola que o Carlos refere é muito pertinente, não só o sistema de ensino não contempla o ensino desportivo (as aulas de Educação Física são uma anedota!), como depois os horários não facilitam a prática desportiva fora da escola. É uma questão de fundo que precisava de ter alterada.

    E, como o Pedro diz, um jogador português na NBA seria uma promoção ímpar para a modalidade. Podemos ver o exemplo da Ticha, do que ela significa para a promoção do basquetebol feminino e do que ela contribuiu para o interesse dos meios de comunicação social no basquetebol feminino.

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  10. Excelente post! Concordo plenamente, principalmente com a referência à escola e ao desporto escolar. Poderia facilmente existir uma cooperação muito maior entre escolas e clubes no minimo para a detecção de talentos para as várias modalidades o que por si só aumentaria a qualidade das equipas.

    by the way a ticha foi considerada (no all star game) uma das 15 melhores jogadoras de sempre na wnba e não vi isso noticiado na comunicação social portuguesa

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  11. Ó João P, nao viste isso noticiado, nem eu, mas se fosse, um gajo considerado melhor jogador da 3ºdivisao de futebol de certeza que apareceria...
    Grande País que temos, Viva Portugal!!!

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  12. Convem realçar que betinho é caboverdiano e nacionalizou-se pra jogar pela seleçao portuguesa que lhe dava mais visibilidade que a caboverdiana, ele ate chegou a representar a seleçao caboverdiana num torneio da lusofonia em que meteu sozinho a seleçao portuguesa no bolso e CV venceu a competiçao ....

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  13. Boas,

    sempre que posso venho aqui dar um salto e ver que continua muito activo o seu blog1 ;)

    eu ja vi muitos jogadores que jogaram comigo e ja tive muitos miudos treinados por mim que certamente tinham potencial para estar na nossa primeira liga, mas como todos nós sabemos a adolescencia é uma fase muito importante na formação de qualquer ser humano e o factor popularidade conta muito.
    O Futebol é a modalidade popular, ajuda muito a ser se mais popular na escola e a ganhar muito respeito entre os colegas e é nessa fase que perdemos muitos jogadores. Ja tive colegas que faltavam a jogos para irem a torneios que pagavam 50€ e o maximo que ganhariam era uma medalha! mas estaria la a escola toda a observar.. enquanto que no jogo de basket que se treinou durante a epoca toda apenas um duzia de pessoas nas bancadas..

    a falta de qualidade das instalações é lamentavel, mas neste momento as realidades que eu conheço vivem no limite, um mes de cada vez..
    todos se esforçam, mas é muito dificil mover miudos desmotivados ou sem ambição.

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  14. E o Brasil ?! ta que ta que ta ta ta ta... Nenê, Leandrinho, Spliter e Varejão, é show atrás de show!

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  15. É dura a realidade :( .. As pessoas só ligam ao futebol em Portugal

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  16. Infelizmente para o povo português que gosta de basquetebol é a dura verdade, vai ser muito complicado ou até impossível ver um português jogar na NBA. Cá em Portugal é só futebol e os fundos para o basquetebol praticamente não existe. A nossa única esperança é os jovens que podem fazer a diferença, porque felizmente os jovens estão cada vez mais a gostar de basquetebol mas infelizmente campeonatos de jovens é um pouco complicado de se arranjar. Vamos manter a esperança de pé :)

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  17. Li uma noticia que um miúdo foi este ano jogar para a universidade de Colgate. Não sei se isso interfere em alguma coisa, mas julgo Que tem uma maior probabilidade de ingressar na Nba do que qualquer outro!!

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    1. Sim, o Francisco Amiel.
      Talvez tenha uma probabilidade maior, mas isso é muito diferente de ter uma probabilidade grande (que não tem; sem desprimor para o Francisco, mas é uma universidade pequena e o caminho dali para a NBA ainda é muito longo).

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