20.2.15

CONTRA-ATAQUE - Trocar ou não trocar


No Contra-Ataque desta semana, o Ricardo Brito Reis fala-nos de trocas. Não daquelas que tivemos ontem no trade deadline mais movimentado de sempre, mas daquelas que se fazem dentro das quatro linhas, no meio campo defensivo:



Trocar ou não trocar, eis a questão

por Ricardo Brito Reis

Não, não é de trocas de jogadores que me proponho escrever esta semana. Apesar de este ter sido o trade deadline mais louco dos últimos anos, vou deixar essa análise para o senhor que manda neste blogue – Márcio, vais ter que refazer os boletins de avaliação das 30 equipas da liga! – e, em vez disso, prefiro focar-me noutro tipo de trocas. Daquelas que se fazem dentro das quatro linhas, no meio-campo defensivo. Até porque as equipas que lideram as duas conferências, Warriors no Oeste e Hawks no Este, abordam as trocas defensivas de perspectivas completamente diferentes e ambas têm tido muito sucesso na defesa.

Toda a gente fala do ataque dos Warriors e dos Hawks, mas toda a gente sabe que é a defesa que ganha campeonatos. Não é, por isso, de estranhar que os líderes classificativos das duas conferências estejam em destaque nos vários rankings defensivos da NBA. A formação orientada por Steve Kerr é, de resto, líder do rácio defensivo (pontos sofridos por cada 100 posses de bola do adversário), com uma média de 97.3 pontos por jogo. O conjunto de Atlanta, por sua vez, ocupa o 6º lugar desse ranking, com uma média de 100.2 pontos. No que diz respeito, por exemplo, à média de roubos de bola por partida, os Warriors são a 4ª melhor equipa da liga (9.4) e os Hawks surgem na posição seguinte (8.8).

Os números são idênticos e os resultados também. Mas será que o processo defensivo é parecido? Não.

Os Golden State Warriors têm um estilo de jogo que vive muito da velocidade e das transições rápidas. São a equipa da liga com maior número de posses de bola por jogo (média de 101.2 por cada 48 minutos). Gostam de correr e, por isso mesmo, seria de esperar que fossem apanhados desprevenidos muitas vezes aquando da recuperação defensiva, mas isso não acontece. Porquê? Por causa da versatilidade defensiva e da própria morfologia dos atletas, que permite que jogadores exteriores defendam interiores e vice-versa. Andre Iguodala e Draymond Green podem defender atletas de quatro posições diferentes (desde point guards a power forwards) e Klay Thompson, Harrison Barnes e Shaun Livingston defendem jogadores das posições 1, 2 e 3. Logo, não há perdas de tempo à procura do atacante directo na recuperação defensiva. Cada um defende o jogador mais próximo e, assim, concedem menos pontos no início dos ataques dos adversários. Nesta fase, a comunicação entre os cinco jogadores é essencial para o sucesso.

Depois, na defesa em meio-campo, Steve Kerr promove trocas defensivas em praticamente todos os bloqueios directos. À excepção de Andrew Bogut, que tem a missão de proteger o cesto, todos os outros podem – e devem – trocar nos bloqueios. Como os atletas à sua disposição são todos fisicamente semelhantes, não há mismatch e, consequentemente, as equipas adversárias não apostam em isolamentos, porque, pura e simplesmente, não há vantagens criadas. O único jogador fisicamente mais fraco é Stephen Curry, mas, quando o base entra nas trocas defensivas, as ajudas são bem mais evidentes. O treinador dos Warriors já afirmou que esta opção de trocar em todos os bloqueios tem como objectivo pressionar os adversários, pois, sem vantagens identificadas, o relógio dos 24 segundos parece correr mais depressa. Aqui, a agressividade dos defensores é chave e Draymond Green é a personificação desse mindset. A ideia é: mesmo na defesa, os jogadores dos Warriors estão a atacar.

Em Atlanta, o técnico Mike Budenholzer toma opções diferentes, embora exista uma matriz defensiva com pontos em comum com a estratégia dos Warriors: proteger a área restrictiva (os Hawks são a 6ª equipa da NBA que menos pontos sofre na zona pintada, com média de 39.7 por jogo) e limitar/contestar todos os lançamentos de três pontos. Não têm defensores extraordinários – DeMarre Carroll é um bom defensor do perímetro e Al Horford é competente nas áreas próximas do cesto -, pelo que o segredo é a defesa colectiva, fruto de um bom posicionamento no meio-campo defensivo. Para isso, é preciso jogadores inteligentes, com disponibilidade física para ajudas e rotações defensivas nos timings certos, em que cada atleta sabe perfeitamente qual é o seu papel e quais são as suas responsabilidades, onde deve estar e onde estão os seus colegas de equipa.

Para Budenholzer, as trocas defensivas devem ser evitadas. O ex- adjunto de Gregg Popovich diz que criam momentos de hesitação que podem ser aproveitados pelos atacantes, pelo que, sempre que possível, os seus atletas devem manter-se com o respectivo atacante directo. O foco dos Hawks é correr para trás – se necessário, abdicar do ressalto ofensivo -, parar os contra-ataques e os ataques secundários, pressionando muito o base ou o portador da bola. É, portanto, sem surpresa que os Hawks são a 2ª equipa da liga que menos pontos sofre em contra-ataque, com média de 10.8 por encontro. Depois, sem trocas e com ajudas muito profundas, o objectivo é obrigar a equipa contrária a utilizar grande parte dos 24 segundos, até porque, dessa forma, os Hawks levam os adversários a escolher a 3ª ou 4ª opção no ataque. Ou seja, eliminam as primeiras opções, que, por norma, são as mais eficazes.

O maior mérito de Kerr e Budenholzer é terem percebido que tipo de jogadores têm e estabelecerem processos defensivos que tirem partido das suas características físicas e mentais. Ao potenciar as mais-valias e, por inerência, ao esconder as lacunas dos atletas, é mais fácil que estes «comprem» as ideias dos treinadores. O êxito é uma consequência natural.


1 comentário:

  1. Só acrescentar também que o Curry está muito melhor defensor do que no ano passado. A Defended Field Goal Percentage dele, ou seja a FG% de um adversário quando está a ser marcado por ele, está nos 39%, é mesmo dos melhores da Liga. E se tivermos em conta a FG% geral da equipa adversária quando ele está em campo (43.2%), percebemos que o jogador quando está a ser marcado por ele, tem mais hipóteses de falhar o lançamento. A diferença de percentagem entre ser marcado por ele ou pela equipa (quando ele está em campo) é negativa - o que é excelente -, e está -4.2%. Mais uma vez, um dos melhores da liga.

    De resto, mais um excelente artigo.

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