2.4.14

Curry e a arte de lançar


Nós percebemos a necessidade de mostrar de forma positiva o produto que se vende e a ESPN já nos habituou a exagerar um pouco os feitos de alguns jogadores (hello, LeBron), mas desta vez pode ter ido longe demais. Stephen Curry é, sem dúvida, um dos melhores atiradores da NBA, talvez mesmo o melhor, mas dizer que ele está a reinventar o acto de lançamento é um esticar muiiiiiito a corda. 


David Fleming fez um longo artigo sobre o gesto de lançamento do base dos Warriors, onde afirma que este está a redefinir a forma de lançar. E a teoria de Fleming é que a mecânica de lançamento de Curry é revolucionária porque este liberta a bola mais cedo e mais rápido que qualquer outro jogador. Curry não salta muito para lançar e já está a libertar a bola ainda na subida e antes de atingir o ponto mais alto do seu salto. E, segundo Fleming, consegue fazer todo o gesto em menos 0.2 segundos que a média.

É um facto que Curry tem um gatilho rapidíssimo (basta ver um jogo dele para o perceber) e consegue com isso ganhar tempo e espaço precioso para lançar, mas ter uma mecânica rápida é bem diferente de revolucionar o gesto de lançamento. Aquilo que Curry faz é apenas uma pequena variação da mecânica de lançamento dos livros. O seu gesto é perfeito, mas não só está longe de ser o primeiro jogador a fazer uma adaptação no gesto, como não o faz de forma tão radicalmente diferente de outros (entre os actuais e entre todos os grandes atiradores que a NBA já teve).

Por exemplo, Ray Allen (um dos jogadores comparados com Curry no artigo) usa mais as pernas, salta mais alto e liberta a bola apenas quando atinge o ponto mais alto do salto.




E se olharmos para outros grandes atiradores (de agora e do passado: Kyle Korver, Bradley Beal, Steve Nash, Reggie Miller, Glen Rice, Dell Curry, etc, etc) encontramos muitas destas pequenas variações. Uns mais rápido, outros que saltam mais, outros que saltam menos, uns que usam um bocadinho mais as pernas, outros que usam um pouco mais os braços, mas todos com princípios e fundamentos semelhantes. 

Curry desenvolveu esta pequena variação na mecânica ao longo da sua vida e da sua formação para compensar o facto de  ser um jogador pequeno e que precisava de lançar rápido para conseguir lançar sobre jogadores mais altos, mas não inventou uma nova forma de lançar. Se ele lançasse da cintura ou de trás da cabeça com as duas mãos, aí teria inventado uma nova forma de lançar (duas formas estúpidas, eu sei, mas é só para ilustrar o meu ponto).

Va lá, senhores da ESPN, o que Curry consegue fazer em campo e a facilidade com que mete a bola no cesto já são suficientemente impressionantes e já são motivo mais que suficiente para todos seguirmos deliciados os seus jogos, não precisamos exagerar.

4 comentários:

  1. Concordo com este artigo, algo que me tenho habituado é ao exagero e até mesmo histerismo que rodeia a nossa liga favorita, penso que cabe a nós analisarmos tudo com cuidado e sempre com espírito crítico, este mesmo que Márcio apresenta, e desta forma evoluirmos como adeptos e apreciadores deste magnífico desporto. Não deixa de ser muito curiosa estas análises às técnicas individuais dos jogadores.

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  2. Acho o Bradley (e não Brandon como dizem os comentadores da SportTV) Beal, de entre os 3-point shooters, aquele que tem melhor técnica de lançamento. Mas lá está, também salta muito, tal como o Ray Allen.

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  3. Compreendo a perspectiva. Todavia, da mesma forma que a ESPN pode estar a sobrevalorizar, parece-me que também poderá estar a desvalorizar em demasia o que são 0.2 segundos. É uma imensidão de tempo num jogo em que o tempo é uma factor fundamental. Pode não ser uma revolução, mas a consequência da "variação da mecânica" torna-na incomparável com variações como o maior ou menor uso de braços ou pernas. Não é uma questão de estilo. Uma "variação de mecânica" que permita uma redução dessas é digna de registo e, sim, no limite, se for adoptada ou imitada, pode ser revolucionária. Não faltam exemplos do género noutros desportos.

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    1. Esse é um bom ponto, Jorge, e não quero (nem devemos) desvalorizar o que Curry faz. É digno de registo e é uma das coisas que o torna tão bom lançador. Podemos chamar-lhe um aperfeiçoamento (pessoal), mas uma reinvenção parece-me manifestamente exagerado.

      Porque não me parece que seja uma caso dum aperfeiçoamento que vá ser adoptado e generalizado, é mais um caso de uma adaptação que serviu (e serve) este jogador.

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