1.4.14

Fazer ou não fazer tanking?


Vamos lá então ao nosso bitaite sobre o infame "tanking". Fazer ou não fazer? Será a melhor estratégia para (re)construir uma equipa ou é melhor construir através de trocas e da free agency?



Antes de mais, sobre a natureza do tanking:
É algo que é contrário ao espírito do jogo e devia ser combatido pela NBA?

Sim e não. Perder jogos de propósito é contrário ao espírito do jogo e é, pura e simplesmente, fazer batota. Mas nenhuma equipa na NBA perde jogos de propósito, i.e., nenhum jogador da NBA perde de propósito e o plantel que entra em campo quer ganhar e dá o seu melhor para tal. Apenas não são bons o suficiente para o fazer muitas vezes.

O que as equipas fazem é outra coisa: é traçar um plano para ganhar a longo prazo. E chegarem aonde querem pode demorar vários anos. No curto prazo optam por desenvolver os jovens do plantel e, pelo caminho, aumentar as hipóteses de continuar a reforçar a equipa através do draft. 

Salvaguardando as óbvias diferenças, é um plano um pouco semelhante ao que é feito, por exemplo, em escalões de formação. Monta-se uma equipa de iniciados (sub12) com atletas de primeiro ano no escalão (com 11 anos) (que nesse primeiro ano pode perder muitos jogos) para ser competitiva no segundo ano.

Um plano destes na NBA, embora signifique não ser competitivo no imediato, também não é contrário ao espírito do jogo. Elas querem ganhar, só que para essas equipas esse é um plano a vários anos.

Mas, no entanto, é algo que não devia ser tão recompensado. Quando (ou se) a liga mudar as regras do draft e diminuir as probabilidades dos piores recordes ganharem a primeira escolha (por exemplo, com possibilidades iguais para todas as equipas que ficam fora dos playoffs), esse problema será reduzido.

Até lá, enquanto as regras recompensarem tanto as derrotas, compreende-se que as equipas recorram a esse plano. Porque não o fariam? Se eu fosse um general manager nas circunstâncias que falaremos a seguir, também o faria, provavelmente.


É uma boa estratégia então? 

É uma das estratégias disponíveis. Em termos absolutos, não é melhor nem pior que as outras. Depende das equipas e das circunstâncias. 

Para equipas de mercados grandes (como os Lakers ou Knicks), que conseguem atrair mais e melhores free agents, é uma estratégia a que não precisam de recorrer. Mas para equipas de mercados pequenos (como uns Bucks ou Cavs) é provavelmente a melhor hipótese de conseguir uma estrela ou um franchise player e a melhor forma de começar a montar uma equipa.

Depende também da fase da reconstrução em que estão. Para uma equipa já a meio da mesma ou já com um bom núcleo para desenvolver, não fará sentido deitar isso abaixo para começar de novo e pode fazer mais sentido tentar completar esse núcleo com free agents ou trocas (mais uma vez, como os Pacers fizeram). Mas para equipas que estão em fim de ciclo (como os Celtics na época passada) ou com um plantel que atingiu o seu tecto e não vai mais longe (como os Sixers do ano passado), já faz mais sentido mandar abaixo e começar do zero (ou quase).

E, claro, também depende do ano em que o fazem. Num draft como o de 2003 ou o de 2014 é uma boa estratégia, num como o do ano passado nem tanto.


É a única estratégia que resta às equipas de mercados pequenos?

Não e há equipas fora dos maiores mercados (como Dallas ou Miami) que apostaram (e apostam) na free agency e nas trocas para construir as suas equipas. Ou como Indiana (um dos mercados mais pequenos da NBA) que optou por uma estratégia mista. Construiu através do draft e também através de trocas e free agency.

Mas muitas equipas veem-na como a mais fácil. Ou, pelo menos, como a forma mais fácil de começar. E como dissemos em cima, pode ser a melhor (ou única) forma de conseguirem essa(s) primeira(s) peça(s).


É uma estratégia fácil então?

Não, de todo. Não é de certeza tão fácil como parece pela quantidade de equipas que o fazem. É uma estratégia que para além de exigir uma gestão competente e uma boa avaliação de talentos, também depende bastante da sorte. Pode correr muito bem (como correu aos Thunder, por exemplo) ou muito mal (como aos Cavs).

Ter escolhas altas não garante uma boa equipa. É preciso escolher bem e, lá está, ter também sorte nessas escolhas. Para além disso, também é possível escolher bem e construir pelo draft sem ter as primeiras escolhas ou sequer escolhas altas (como, mais uma vez, os Pacers: Paul George foi a 10ª escolha, Hibbert a 17ª e Stephenson a 40ª; ou os Spurs: Tony Parker foi a 28ª escolha e Ginobili a 57!).

Na verdade, são muito mais os exemplos de equipas com escolhas altas (algumas vários anos seguidos) que não se traduziram em equipas de topo do que o contrário. A excepção (e a vez em que esse plano correu na perfeição) são mesmo os Thunder.

Por isso, para uma equipa num mercado pequeno, pode ser uma boa estratégia para começar a construção dum plantel. Mas está longe de ser uma estratégia garantida ou fácil. Ter a primeira escolha (ou uma das primeiras) é só o começo do plano. Depois depende do que se faz com ela. E do que se continua a fazer depois disso.

4 comentários:

  1. Excelente análise como sempre.

    Márcio, gostava que abordasses este tema: se os Thunder não forem campeões até 2016, Durant e Westbrook separam-se e vão em busca de outros projetos? Se tal acontecer será o "fim" deste projeto e devem voltar a apostar no Draft?

    Obrigado.

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  2. O Westbrook é, ainda, um jogador imaturo. Este ano não ganham nada de certeza!
    Mais um campeonato para os Spurs? É uma boa possibilidade.

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  3. Muito bom artigo.
    Lançando a confusão e contrariando o espírito da Liga... Talvez não fosse uma má ideia permitir a subida de 1 equipa por conferência por ano (oriundas de uma 2ª Liga criada c/ um max de 8/10 equipas) para o lugar da pior equipa de cada conferência.

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  4. Tanto que é verdade que esta estratégia não é segura, aliás radicalizando um pouco diria que nem é uma estratégia segura pois a meu ver a percentagem de insucesso ultrapassa a percentagem de sucesso, que existe uma forte possibilidade de Jabari Parker não entrar no draft 2014. Dá para perceber os perigos que se correm com a realização de tanking. Claro que em alguns casos acaba por ser a única forma claro, mas o tanking só em si não traz nada positivo a não ser que hajam associado muitas outras qualidades.

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