30.5.14

Uma reacção do tamanho do Texas


De volta a casa, depois de perderem os dois jogos em Oklahoma e deixarem os Thunder empatar a série, os Spurs estavam encostados à parede e se queriam evitar uma reviravolta como a que aconteceu na final de  conferência de 2012, impunha-se uma reacção à altura. E uma reacção à altura foi exactamente o que os Spurs tiveram.

Gregg Popovich, que é provavelmente o melhor treinador da liga a fazer ajustes durante o decorrer duma série e durante o decorrer do próprio jogo, voltou ontem a não deixar os créditos por mãos alheias. Pop fez três ajustes que foram decisivos neste jogo (e, quem sabe, na série):


- alterou o cinco
alterou o cinco inicial e o cinco que alinhou durante a maior parte do jogo. Começou o jogo com Matt Bonner em vez de Tiago Splitter e, apesar de Bonner nem ter feito um bom jogo (e não ter acertado qualquer triplo), a sua presença em campo obrigou Ibaka a defender mais longe do cesto e abriu espaço para os Spurs atacarem a área restritiva. Com Ibaka a não poder dar a Bonner o espaço que dá a Splitter (e ter de vir de mais longe para a ajuda), houve mais espaço para penetrações, cortes e post-ups. 
Esse plano de jogar com quatro jogadores abertos e apenas um jogador interior (Duncan e Splitter nunca jogaram juntos neste jogo) manteve-se durante o resto do jogo com Boris Diaw, que, este sim, fez um óptimo jogo, acertou um par de triplos e manteve a defesa dos Thunder mais aberta. 

- pôs Kawhi Leonard a defender Westbrook
Pop baralhou as cartas também na defesa. Colocou Kawhi Leonard em Russell Westbrook e Danny Green em Kevin Durant. Contra Leonard, mais alto e igualmente atlético, o base dos Thunder teve mais dificuldades em penetrar (marcou apenas 2 lançamentos na área restritiva) e não andou à solta pela defesa dos Spurs. Teve mais lançamentos contestados e teve de batalhar muito mais para conseguir lançamentos e pontos.
E com Durant, Pop optou pela estratégia que Grizzlies e Clippers já tinham feito com sucesso: um defensor mais pequeno, que se cola a Durant e coloca por baixo dele para lhe retirar o drible.
É claro que com jogadores do nível destes dois, a questão não é pará-los (porque isso é impossível) mas sim limitá-los. E ontem os Spurs conseguiram-no. Protegeram melhor a área restritiva e conseguiram manter Durant e Westbrook no perímetro na maior parte do jogo.

- envolveu um terceiro jogador no pick and roll
com Bonner e Diaw a jogarem abertos, houve mais espaço para Tony Parker e Manu Ginobili operarem nos pick and rolls e atacarem o cesto. Os bloqueadores também abriram mais cedo dos bloqueios (fizeram short rolls) para dar imediatamente (e antes do seu defensor recuperar) uma linha de passe ao jogador com bola. Mas, para ajudar a uma maior eficiência dessa movimentação, Pop arranjou ainda uma terceira opção.
Colocou um jogador aberto no topo, do lado contrário, como válvula de escape do pick and roll. Quando Parker e Ginobili não conseguiam penetrar ou assistir (ou quando vinha a ajuda do lado contrário), passaram muitas vezes para esse jogador (que podia lançar, continuar  a jogada do lado contrário ou voltar a passar para o jogador que tinha feito o bloqueio). Foi uma triangulação que resultou muitas vezes no ataque dos Spurs:

Aqui, Tim Duncan desfaz rapidamente do bloqueio para receber o passe de Ginobili. E Diaw estava lá, aberto no lado contrário, para dar essa segunda linha de passe e terceira opção ofensiva

Mais uma vez, com Duncan a desfazer mais rápido do bloqueio (antes do seu defensor, que deu a ajuda no bloqueio, ter tempo de recuperar) e com o apoio de Bellinelli do lado contrário



Popovich foi certeiro nos ajustes que fez. Nenhum deles mudou o jogo por si só, mas todos juntos fizeram uma grande diferença. Mas não foram só os ajustes de Pop que foram decisivos. Os jogadores dos Spurs corresponderam e tiveram também uma reacção à altura da ocasião.

Foram mais agressivos e activos (tanto na defesa como no ataque), atacaram mais o cesto, movimentaram melhor a bola, movimentaram-se melhor sem bola, cuidaram melhor da bola (apenas 12 turnovers) e acertaram os lançamentos (51% em lançamentos de campo; 13 em 26 de 3pts). Os ajustes de Pop foram metade da diferença neste jogo. A outra metade foi a execução dos jogadores, que, basicamente, fizeram tudo melhor do que nos dois jogos anteriores.

Tudo somado, o resultado foi uma noite quase perfeita para os Spurs. Pop delineou bem o plano, os jogadores executaram-no na perfeição e os Spurs reagiram como se impunha. Em grande.

1 comentário:

  1. Excelente crónica. No ponto 2 não podia concordar mais. Pop já devia ter posto há mais tempo Leonard a defender o Westbrook. Isto porque o jogador dos Spurs é um defesa talhado para tentar parar transições e defender o Westbrook que penetra mais do que o Durant (o James também é um exemplo) é mais aconselhável para ele. Outros jogadores que fazem melhor isso são aqueles com braços longos e suficientemente rápidos para acompanhá-los até perto do cesto (Butler, Iguodala, Paul George). Para o Durant um jogador que lhe limite o espaço e não o deixe por a bola no chão para o drible (isto porque KD apesar da sua altura tem um ball-handing muito bom) é o ideal. O Tony Allen fê-lo muito bem, o CP3 idem e agora o Green é o mais indicado, isto porque o Parker é banal na defesa. O Diaw podia também dar uma ajuda, mas está ocupado com o mid-range shoot do Ibaka.

    Como já tinha dito anteriormente num comparação entre KD e LBJ,

    "O Durant é mais difícil de defender, porque trabalha mais com bola no chão e consegue criar o seu próprio lançamento para disparar de fora. Por isso é que os melhores jogadores para defendê-lo são aqueles rápidos e que não lhe dão muito espaço para o drible (CP3, Tony Allen).

    O James é mais difícil de parar, porque o jogo dele baseia-se nas penetrações. Para defende-lo é preciso alguém com um bom físico e suficientemente rápido para acompanhá-lo nas incursões para o cesto. Jogadores com braços grandes que possam dar algum espaço, mas não permitir que ele se distancie muito são o ideal para amortizá-lo (Leonard, Iguodala, George)."

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