6.3.14

O ataque segundo Popovich



Nem de propósito (e a propósito do post anterior), antes dos seus Spurs darem um recital de jogo colectivo frente aos Cavs, Gregg Popovich deu um clinic espontâneo sobre a filosofia da sua equipa.

Na conferência de imprensa antes do jogo, e a respeito das declarações de Mike Brown a apontar os Spurs como o modelo a seguir, alguém pediu a Popovich para explicar a sua filosofia no ataque. Pop devia estar bem disposto, porque não só deu uma resposta com mais de três palavras, como elaborou e deu um mini-clinic sobre a sua filosofia de treino:


Q: Mike Brown diz que quer atingir um ponto em que os jogadores não estão a executar jogadas de forma rígida, mas "simplesmente a jogar basquetebol". Ele diz que a sua equipa é a melhor nisso. Na sua experiência, quanto tempo demora a implementar algo assim?

Popovich: É uma busca que nunca termina. É preciso continuar a fazê-lo. Apesar do nosso núcleo estar junto há tanto tempo, ainda tenho de lhes relembrar, fazer um exercício de vez em quando ou enfatizar isso num treino. Se estamos a agarrar-nos demais à bola e esta não está a mexer e não estamos a passar de "bom para óptimo" nos lançamentos.

Q: Pode explicar esse conceito "de bom para óptimo"?

Popovich: Há muitos bons lançamentos, mas se consegues transformar isso num lançamento muito bom, as percentagens disparam. Lançamentos contestados são lançamentos realmente maus. As percentagens descem quase 20 pontos, quase sem excepção. Tudo isso são coisas num ataque que um treinador está sempre a tentar desenvolver. Demora tempo até todos aceitarem e perceberem como é bom para o grupo fazer isso.

Queres penetrar não só para ti, mas para um companheiro. Penetrar porque queres fazer coisas acontecer. Pode ser para ti. Pode ser para um colega de equipa. Pode ser para o passe depois do passe que tu fazes. À medida que o pessoal começa a perceber isso, começas a entrar num ritmo e o pessoal começa a jogar basquetebol em vez de estarem apenas a executar a jogada que foi pedida ou a fazer coisas automáticas.

Q: Como consegue que os jogadores assumam responsabilidade pelo ataque? É uma questão de confiança?

Popovich: Essa é uma boa questão (n.t.: Uau! Pop a elogiar uma pergunta de um jornalista!). Depende muito da competitividade e do carácter do jogador. Muitas vezes, apelo a isso. Do género, eu não posso tomar todas as decisões por ti. Não tenho 14 descontos de tempo. Vocês têm de se juntar e falar. Vocês podem ver um mismatch que eu não vejo. Vocês precisam de comunicar constantemente, falar, falar, falar uns com os outros sobre o que se está a passar em campo. 

Penso que a comunicação realmente ajuda. Cria um sentimento de que eles estão em controlo. Penso que pessoas com espírito competitivo não querem ser manipuladas constantemente para fazer o que um indivíduo quer que elas façam. É uma sensação muito boa quando os jogadores se unem e pensam como um grupo. E tudo o que puder ser feito para lhes dar esse poder...

Às vezes, nos descontos de tempo, digo-lhes 'não tenho nada para vos dizer. Que querem que eu faça? Acabámos de perder a bola seis vezes. Toda a gente está a agarrar-se à bola. Que mais querem que eu faça? Resolvam vocês.' E levanto-me e afasto-me. Porque é verdade. Não há mais nada que eu possa fazer por eles. Posso dizer-lhes umas balelas e comportar-me como um treinador, mas está nas mãos deles. 

Se eles estão a agarrar-se à bola, estão a agarrar-se à bola. Eu não lhes disse de certeza para se agarrarem à bola. Tal como, se eles fizerem cinco cestos seguidos, não fui eu que fiz isso. Se conseguem um grande ressalto, não fui eu que fiz isso. O jogo é dos jogadores e eles têm de produzir. Quanto melhor conseguires passar-lhes essa mensagem, mais responsabilidade eles assumem e mais suaves as coisas correm.

Depois intervéns aqui e ali. Pedes uma jogada em algum momento do jogo ou fazes uma substituição, esse tipo de coisas que ajudam a equipa a vencer. Mas basicamente, eles têm de assumir ou nunca vão chegar ao topo da montanha.


Pop não quer máquinas que executem roboticamente movimentações pré-definidas, Quer jogadores que pensem pela sua cabeça, leiam o jogo e decidam de acordo. Mal sabia ele que, umas horas mais tarde, a sua equipa iria fazer a melhor ilustração possível das suas palavras.


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