8.1.15

CONTRA-ATAQUE - Spurs 2.0


No Contra-Ataque desta semana, o Ricardo Brito Reis faz uma extensa e excelente análise dos primeiros classificados do Este, os surpreendentes Atlanta Hawks:

Spurs - versão 2.0 

por Ricardo Brito Reis

Com a vitória desta noite frente aos Memphis Grizzlies, os Atlanta Hawks somam 27 triunfos e 8 derrotas, lideram a classificação da respectiva conferência e, pelo meio, ganharam a alcunha de «Spurs do Este». O seu estilo de jogo baseado na movimentação constante dos jogadores sem bola e consequente boa selecção de lançamentos, para além do desempenho defensivo assinalável, justificam essa comparação, mas reduzir o sucesso dos Hawks ao sistema é injusto. Vamos, por isso, dissecar a formação da Georgia, tentar perceber quais são os ingredientes desta receita vencedora e se, de facto, são um conjunto tirado a papel químico dos San Antonio Spurs.

O treinador
Neste ponto, a comparação com os actuais campeões é inevitável. Mike Budenholzer trabalhou 19 anos nos Spurs, antes de pegar na equipa dos Hawks. Começou como coordenador de vídeo e, dois anos mais tarde, passou a sentar-se ao lado de Gregg Popovich e tornou-se seu discípulo. Aí ficou 17 temporadas e, da famosa árvore de Coach Pop, Budenholzer era o ramo mais desejado pelas equipas que, por esta ou aquela razão, ficavam sem treinador. A sorte saiu aos Hawks.
Desde que chegou a Atlanta, o técnico nunca escondeu que ia implementar muito do que aprendeu em quase duas décadas no Texas e disse, em jeito de brincadeira, que, se as coisas corressem bem, estaria disposto a enviar 90% do seu ordenado a Popovich. Parece que está na hora de pagar.

Os jogadores
As comparações entre Hawks e Spurs são feitas inúmeras vezes, pelos principais analistas norte-americanos. E os atletas não fogem à regra. Se olharmos com atenção, há vários pontos em comum entre alguns deles.
Jeff Teague é um penetrador agressivo e assertivo e, à semelhança de um Tony Parker mais novo, acaba invariavelmente por lançar bem dentro da área restrictiva da equipa contrária. O base dos Hawks ainda não é uma ameaça tão mortífera quanto Parker no pick&roll, mas Mike Budenholzer quer que Teague aprenda a dominar as leituras do bloqueio directo tão bem como o francês. Kyle Korver é dos poucos jogadores da NBA que lança melhor da linha dos 3 pontos (51.3%) do que Danny Green (40,0%), embora seja pior no meio-campo defensivo. DeMarre Carroll faz lembrar Kawhi Leonard, ou seja, um atleta de dimensão marcadamente defensiva, mas que tem desenvolvido o seu jogo ofensivo nos últimos dois anos. E, com as devidas distâncias, Al Horford é uma espécie de Tim Duncan, na medida em que é uma força interior nos dois lados do campo. Ambos power forwards que aparecem muitas vezes na posição de poste, com capacidade para jogar de costas para o cesto, mas também de lançar de meia-distância. Ambos líderes dos respectivos conjuntos, nada egoístas, trabalhadores e disponíveis para sacrificar números individuais em prol da equipa. Sobra Paul Millsap, que pode ser comparado a Boris Diaw, pelo menos no que diz respeito à sua capacidade de passe, pese embora seja muito mais efectivo ofensivamente do que o francês. OK, esta última é a comparação mais forçada, mas não queria deixar o Millsap de fora.
Há, no entanto, diferenças evidentes entre os dois conjuntos. A maior é a ausência de um verdadeiro big no plantel dos Hawks, como Tiago Splitter ou Aron Baynes, dos Spurs. Por algum motivo são a 4ª pior equipa da NBA em matéria de ressaltos, com uma média de 41.0 por jogo (2ª pior em ressaltos ofensivos, com média de 8.5 por jogo) e a 8ª pior formação da liga em pontos marcados na área restrictiva, com uma média de 41.0 por jogo. Este factor pode vir a tornar-se decisivo, sobretudo nos playoffs, se tiverem que enfrentar os Chicago Bulls (Noah, Gasol, Gibson) ou os Washington Wizards (Gortat, Nené, Humphries). Para além desta lacuna, têm um banco com pouca profundidade, onde não há nenhum Manu Ginobili e apenas Dennis Schroder e Mike Scott contribuem com números significativos.

O sistema
A prioridade da equipa técnica liderada por Budenholzer era melhorar a circulação da bola, depois de vários anos com sistemas que viviam com base em isolamentos (quer para Joe Johnson, quer para Josh Smith). E, assim, Bud implementou um ataque por conceitos em tudo idêntico ao dos Spurs, com vários cortes e bloqueios, sobretudo do lado fraco, mas com uma premissa sempre presente: todos os cinco atletas em constante movimento e, pelo menos, uma mudança do lado da bola em cada ataque. A imprevisibilidade tornou-se imagem de marca do ataque dos Hawks, uma vez que cada atleta é uma ameaça ofensiva, até porque, à excepção de Elton Brand, todos os elementos que compõem o plantel são capazes de lançar do perímetro. Outra das regras de ouro do ataque dos Hawks é abdicar de um bom lançamento para privilegiar um excelente lançamento (‘good to great’) e, por isso, a qualidade de passe e a tomada de boas decisões são, também, referências para esta formação.
Defensivamente, os Hawks gostam de assumir as responsabilidades individuais e as ajudas são, mesmo, o último recurso. E é comum usarem como estratégia a variação dos match ups defensivos várias vezes no mesmo jogo, obrigando os adversários a terem que ajustar consoante o defensor que têm à frente.
É um sistema que depende do Q.I. basquetebolístico dos atletas e, nesse capítulo, os Atlanta Hawks estão muito bem servidos. E, como diz Popovich, não têm todo o talento do mundo, mas têm as peças certas que se complementam na perfeição.

Os números
Toda a gente fala da qualidade de passe, mas, apesar de liderarem o ranking da assist % (percentagem de lançamentos concretizados após assistência de um colega) entre todas as equipas da NBA, com 67.0%, os Hawks estiveram no top-10 deste ranking nas últimas cinco temporadas. A diferença é que todos contribuem no ataque e isso vem do trabalho de desenvolvimento individual promovido por Mike Budenholzer. Basta ver, por exemplo, que Paul Millsap marcou mais triplos na época passada do que em sete temporadas nos Utah Jazz. E, tal como Millsap, outros têm evoluído muito desde a chegada de Bud.
Defensivamente, estão melhores a cada novo ano. Esta época, são 5º no rating defensivo (pontos sofridos por cada 100 posses de bola do adversário) e estão no top-10 de outros rankings defensivos, como os roubos de bola, os pontos sofridos em contra-ataque e pontos sofridos na área restrictiva.

A química
DeMarre Carroll não tem dúvidas quanto à explicação do sucesso dos Hawks. O extremo diz que todos os jogadores confiam uns nos outros, o que não acontecia no passado recente. Elton Brand acrescenta que, das equipas por onde passou, esta é aquela em que os jogadores mais querem trabalhar e sublinha que são os que jogam menos ou os que têm contratos garantidos por mais de um ano que dão o exemplo, treinando no limite, porque querem melhorar e contribuir.
A este mindset dos atletas não será alheio o papel do treinador. Após cada jogo, seja vitória ou derrota, Mike Budenholzer promove um jantar na cidade em que se encontra a equipa. A presença no jantar não é obrigatória, mas ninguém falta. Em vez de apanharem um charter de regresso a Atlanta, os jogadores e técnicos dos Hawks jantam juntos, num ritual que o treinador chama de «breaking bread», e esses jantares têm aproximado os jogadores entre si e os atletas com os técnicos. Os laços entre todos saem reforçados e isso reflecte-se, depois, dentro das quatro linhas.

O futuro
É a primeira vez em 17 anos que os Hawks lideram isolados a Conferência Este. Nos anos mais recentes, a equipa não tem sido má, mas também não tem sido boa. E isso reflecte-se nas bancadas. Registam a 9ª pior média de assistência da NBA, mas, com este sucesso deste ano, essa média subiu em 2200 pessoas, o que é o maior aumento da liga norte-americana. O futuro passa por aqui. Tornar a equipa suficientemente excitante, para ter cada vez mais gente a assistir aos jogos. Essa envolvência com as pessoas de Atlanta vai ajudar a tornar a formação mais apelativa para outros jogadores, free agents ou não. A cidade já é atractiva para muitos jogadores de outras equipas, e alguns deles têm casa em Atlanta, mas faltava qualquer coisa para atrair as superestrelas. Esse “qualquer coisa” começa a aparecer. Uma boa equipa e uma cultura de vitória.

Sem comentários:

Enviar um comentário