11.2.12

All Lin


Eu sei que no post anterior prometi um artigo sobre o novo fenómeno da NBA apenas daqui a uma dezena de jogos, se ele continuasse a sair-se tão bem como tem feito. Mas 38 pontos aos Lakers depois, parece que vamos ter de antecipar esse artigo. Não só porque aquilo que Jeremy Lin fez nesta última semana é uma improbabilidade, mas porque toda a carreira dele é uma improbabilidade. 


Lin nasceu em Los Angeles, em 1988, filho de dois imigrantes chineses (de Taiwan) com 1,67m cada um. A probabilidade do rebento Jeremy crescer até aos 191 centímetros? Diminuta. Na adolescência, jogou no Liceu de Palo Alto, uma escola da segunda divisão do estado da Califórnia, com boas, mas não espectaculares médias (15 pts, 7 ast, 6 res e 5 rb). A probabilidade destas serem médias de um futuro jogador da NBA? Pequena. 

No fim do liceu, não recebeu qualquer oferta para uma bolsa de estudo desportiva. Algumas universidades ofereceram-lhe um walk-on (treinar com a equipa quando a época começasse e poder ou não ser seleccionado para ficar na equipa de basquetebol) e Harvard foi a única universidade que lhe garantiu um lugar na equipa (mas universidades como Harvard não oferecem bolsas de estudo desportivas). A probabilidade de fazer os estudos universitários em Harvard e acabar na NBA? Quase inexistentes (o último jogador de Harvard a jogar na NBA tinha sido Ed Smith, em 1954).

No último ano em Harvard (2009-10), teve médias que mostravam um jogador polivalente e capaz de fazer de tudo um pouco (16.4 pts, 4.4 res, 4.5 ast, 2.4 rb e 1.1 dl), mas que não eram fora de série e tinham sido conseguidas contra competição menos forte (a Ivy League é mais conhecida por produzir intelectuais do que atletas). Lin teve, no entanto, alguns jogos bons contra universidades mais fortes e despertou alguma atenção a nível nacional com os 30 pontos e 9 ressaltos contra Connecticut.

Em virtude disso, foi observado e convidado para testes pré-draft por algumas equipas da NBA, mas viu passar o draft de 2010 sem ouvir o seu nome. Como undrafted rookie foi depois convidado para jogar na Summer League pelos Mavs. Aí, deu boa conta de si (9.8 pts, 3.2 res, 1.8 ast e 1.2 rb, em 18 min/jogo) e recebeu ofertas de quatro equipas: os Mavericks, os Lakers, uma equipa do Este (que não foi divulgada) e os Warriors.

Lin escolheu a equipa da terra onde cresceu e aquela por quem torcia na infância e assinou pelos Warriors (vamos resistir à tentação e não vamos fazer nenhuma piada sobre a probabilidade de ser bem sucedido nesta equipa!). Depois duma época rookie em que foi pouco utilizado (apenas em 29 jogos, terminando com 2.6 pts, 1.2 res e 1.4 ast, em 9.8 min/jogo), foi dispensado no início desta temporada, quando os Warriors quiseram libertar espaço salarial para conseguir um poste na free agency. 

Depois disso, teve sorte igual em Houston (contratado no dia 12 de Dezembro, mas dispensado no dia 24 - que prenda de Natal, né? -, quando os Rockets quiseram libertar espaço para contratar Samuel Dalembert) e acabou por ser contratado pelos Knicks, quando Iman Shumpert se lesionou. Após uns jogos no banco e uma breve passagem pela D-League para rodar, a onda de lesões e as exibições miseráveis da equipa não deixaram outra alternativa a Mike D'Antoni senão colocar Lin a titular. A probabilidade dele marcar 128 pontos nos quatro jogos seguintes (o máximo de um jogador nos seus primeiros quatro jogos como titular, desde 76-77), liderar os Knicks em quatro vitórias seguidas e tornar-se o jogador mais popular de Nova Iorque? Pois. 


É uma história improvável com um desfecho ainda mais improvável. Mas esse percurso invulgar e difícil é também uma das razões para o sucesso dele. Ao contrário de tantos outros jogadores que são celebrados e glorificados desde a adolescência e que são apontados como futuras estrelas quando ainda jogam no liceu, Lin nunca tomou nada por garantido.

Até à terça feira passada, vivia com o irmão (que é dentista) num pequeno T1 no Lower East Side de Manhattan e dormia no sofá-cama da sala. Porque se os Knicks o dispensassem até à terça feira passada o seu contrato não era garantido. Só desde terça é que Lin tem um ordenado garantido até ao fim da temporada, aconteça o que acontecer.

É uma história de humildade e trabalho, esta de Jeremy Lin. Uma que nos recorda que, no basquetebol como na vida, tudo é possível. Só temos de esperar pela oportunidade e, quando esta nos aparece à frente, não a desperdiçar. You gotta love this game.

13 comentários:

  1. É impossível não dar valor a uma pessoa como o Lin
    Desejo-lhe as melhores felicidades

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  2. Primeiro que tudo, queria te agradecer por teres feito este post. Como eu previa, está espectacular. Vejo no Lin, um rapaz com muita maturidade que dá valor às oportunidades que lhe são dadas. Agora é quase impossivel fazer o que ele fez. É isso que está a despertar tanta curiosidade nele. É impressionante a forma como apenas um jogador desconhecido(agora ja não, e até já existem máscaras e todo o tipo de home franchise feito pelos fãs) consegue levar o MSG ao delirio! Só espero que continue em grande e vamos ver se o regresso do Mello não estraga as boas exibições dos Knicks. Continuação de bom trabalho :)

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  3. Excelente artigo. Ontem vi o jogo frente aos Lakers e o Lin massacrou a defesa de LA. O rapaz não tem problema nenhum em meter-se quase debaixo do cesto, no meio dos grandalhões e, com alguma sorte à mistura, também conseguiu grandes cestos. Para além disso, faz o que um PG tem de fazer, ou seja, circula à bola, encontra os jogadores livres e selecciona melhor o ataque da sua equipa.

    Fields (Stanford) e Lin (Harvard), quem disse que os marrões não sabem jogar?

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  4. É mesmo impossível não se olhar para o registo dele e ficar-se de boca aberta... Penso que ainda se ouvirá falar mais dele :)

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  5. Para se dar bem no basquete "basta" ter boas maos , mas para se dar bem na vida e' preciso ter cabeca e um pouco de fe'. Esta estrela nao e' uma vedeta mas sim um exemplo.
    Espero q joge muitos anos para q a historia fique completa , nem precisa de ser com este nivel exibicional ( o q provalvelmente vai acontecer ) !

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  6. Era impossível não vir comentar isto depois de ter sido o primeiro a pedir após o segundo jogo de Lin knicks... O primeiro a titular e que na altura me deixou " de olhos em bico". Acho que temos aqui um jogador que de caras dava cartas nos Rockets quanto mais nos Warriors.
    Acho que a maior diferença de Lin esta no Q.I.na sua inteligencia a jogar e na forma como põe a bola a girar e faz jogar o Chandler. Tem um óptimo pick and roll.
    A historia ainda ouvirá falar mt deste menino.

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  7. E já agora um MUITO OBRIGADO pelo excelente trabalho e continua em grande Márcio :)

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  8. Estou na expetativa para ver como é que Jeremy Lin, Carmelo Anthony e Amar'e Stoudemire irão jogar juntos nestes "novos" New York Knicks. Mas apenas por mera curiosidade, pois esta equipa, apesar do maior entusiasmo, continua a ter um nível mediano.

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  9. Marco Lizardo12/02/12, 02:11

    Grande Post!!!!
    Obrigado pela pesquisa minuciosa :)

    Sem dúvida que Lin ficará na história da NBA, mais que não seja pelo jogador menos improvável a virar estrela em 1 semana.

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  10. É simples, ele fez um acordo com o diabo :D

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  11. Slice of Butter12/02/12, 20:26

    um base bastante completo. acima de tudo rápido, inteligente e, aparentemente, bom marcador de pontos. vamos lá ver, pode vir a ser um caso de sucesso.

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  12. Depois do jogo de ontem com os Raptors, o caso de sucesso de Jeremy Lin atingiu um novo nível! Viram a forma categórica como ele finalizou o jogo!?! E além disso os Knicks levam seis vitórias consecutivas!! E tudo isto sem Carmelo Anthony... Bem Lin contagiou os colegas de equipa, a cidade de Nova Iorque, os canadianos e não só! Só mesmo a expressão Linsanity poderia definir o momento atual.

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  13. alem de burro e desinformado. como ele fez acordo com o diabo se ele eh cristao?

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