19.11.11

O lockout da NBA e os funcionários públicos


O inverno nuclear na NBA continua sem data à vista para terminar e a janela de oportunidade para salvar a época diminui a cada dia que passa. Ainda é possível salvá-la, mas para isso será necessário que ambas as partes cheguem a acordo fora dos tribunais. O que pode ser feito a qualquer momento. Se, ou quando, houver acordo entre jogadores e donos, os processos em tribunal podem ser retirados. Foi o que aconteceu no lockout da NFL. Perante a ameaça da resolução na barra dos tribunais (o que iria demorar muitos meses), os jogadores e os donos chegaram a acordo fora dela. E essa é a única hipótese de termos basquetebol na NBA esta temporada.

Como chegámos a este ponto? Depois da recusa da NBPA em aceitar a última proposta dos donos, multiplicaram-se as vozes que culpam os jogadores pela trapalhada em que nos encontramos. E não tenhamos dúvidas, a culpa também é deles. Mas não é apenas deles. Porque não há inocentes neste caso. Todas as partes envolvidas são culpadas. Todos (jogadores, donos e liga) são responsáveis por esta monumental trapalhada. Não duvidemos disso por um segundo.

Só que, e é esse o seu grande erro, a posição dos jogadores tem sido a mais ambígua e menos esclarecida deste processo. Todos são culpados, sim, mas ao menos as outras duas partes (liga e donos) têm posições claras e óbvias. Não há dúvidas sobre o que cada uma delas quer. Os patrões querem fazer dinheiro. É disso que se trata para eles. Ganhar dinheiro (ou, pelo menos, não perder). E a liga, para além de querer um sistema onde todas as equipas façam dinheiro (ou não percam), quer aumentar a competitividade.

Podemos discutir se têm razão ou não, podemos discordar dos seus objectivos, mas eles são claros. Preto no branco sabemos o que querem. Já do lado dos jogadores as coisas são mais cinzentas. Querem manter os salários. Querem manter os privilégios que têm. Mas querem também manter a segurança laboral. E querem também manter a flexilibilidade e liberdade da free agency. E o que ainda não perceberam é que não podem ter tudo.


O argumento mais usado para defender os jogadores é que eles são os principais intervenientes do jogo. Que são eles os artistas que fazem tudo o resto possível. Mas se é verdade que sem eles não havia NBA, também é verdade que sem NBA não havia "eles". E, para além disso, eles já são recompensados por isso. É por serem os protagonistas e principais intervenientes que estão numa posição em que mais nenhum trabalhador está. Dividem as receitas a meio com os seus empregadores. Eles são ao mesmo tempo empregados e sócios. Um privilégio que não acontece com os trabalhadores comuns.

E esse argumento de serem os principais intervenientes pode ser usado para qualquer área criativa ou qualquer área em que o talento dos protagonistas é fundamental para o sucesso da empresa. Isso é também verdade para a televisão, por exemplo. Conan O'Brien é o principal protagonista da TBS, mas a estação não divide as receitas com ele. Remunera-o pelo serviço que ele presta e paga-lhe o ordenado negociado e considerado justo entre as partes.

Se fizermos uma comparação com a realidade portuguesa (como o anónimo das 16:25 sugeria), os jogadores da NBA assemelham-se a trabalhadores liberais. Mas com privilégios de funcionários públicos. Têm o melhor de dois mundos. Como os advogados, os designers ou os criativos publicitários, querem vender os seus serviços a um empregador e recebem o valor acordado por isso. Mas, como os funcionários públicos tiveram durante tantos anos, querem o emprego seguro e garantido. 
Querem a liberdade na free agency de escolher a quem vendem os seus serviços, mas não querem que esse vínculo seja liberal. 

Os trabalhadores em Portugal lutam contra a precaridade porque os ordenados são baixos. É o pior de dois mundos. Nem têm ordenados altos, nem têm vínculos laborais seguros. Se me oferecessem 5 milhões de dólares por ano, e ainda por cima numa área que depende do rendimento indivudual (jogar basquetebol está dependente da produtividade, não é o mesmo que estar numa secretária a carimbar papéis), eu aceitava um vínculo liberal. Porque valia apena o risco. Tal como, se me oferecessem um ordenado mais baixo, teria então, para compensar, de lutar por maior segurança.

É por isso que não podemos fazer uma analogia entre os jogadores da NBA e os trabalhadores de Portugal ou qualquer parte do mundo. Os jogadores da NBA têm (e querem) o melhor de dois mundos. É tempo de perceberem que já são privilegiados. É tempo de perceberem que já têm mais do que qualquer outro trabalhador no mundo tem. É tempo de se conformarem que não podem ter tudo.

4 comentários:

  1. o luol deng, kevin love e carlos boozer estao a um passo do besiktas

    ResponderEliminar
  2. pro.benfica19/11/11, 23:05

    Esta ação deve-se, sobretudo, aos jogadores de «top» que, mesmo perdendo dinheiro, já ganharam tanto, e continuam a obtê-lo com os contratos de publicidade, por exemplo, conseguem facilmente encontrar colocação noutras ligas e aguentam a ausência do dinheiro da NBA.
    O mesmo já não acontece com os jogadores mais jovens e os menos bem pagos (mesmo assim, o salário anuam mais baixo é superior a 600 mil dólares), que não têm, obviamente, o estatuto das «superstars».
    Quem também não ganha somos nós, os espetadores, que já devíamos estar a delirar com três semanas de competição e... zero.

    Eu detesto estar merdas, pois foi graças ao «lockout» da década de 90 que assisti, consternado, à partida do único Air Jordan e ao desmantelar de uma das maiores equipas de sempre, os Chicago Bulls.

    Derek Fisher, que já viveu um drama terrível com a sua filha, deveria relativizar um pouco mais as questões que estão em cima da mesa, até porque, se os jogadores tiverem juízo (e muitos não têm), ao fim de dois ou três anos na NBA ficam com a vidinha feita.

    Por último, os jogadores deveriam ter em consideração a crise financeira que afeta parte do mundo neste momento, incluindo os EUA, e que terá consequências futuras totalmente imprevisíveis. Além disso, estão a destruir uma marca que tinha sido reconstruída, nos últimos anos, com grande esforço mas apreciável sucesso.

    Dixit...

    ResponderEliminar
  3. Uma pergunta...e desculpem a minha ignorância, mas como não tenho conhecimento do funcionamento das outras modalidades gostaria que me esclarecessem, se souberem claro...como e que fazem nas outras modalidades relativamente aos salários?? é o mesmo sistema da NBA ou simplesmente recebem um ordenado como o comum dos mortais?

    ResponderEliminar
  4. E dixit muito bem, pro.benfica! :)

    Em relação às outras ligas americanas, sim, todas (NHL, NFL e MLB) têm acordos colectivos de trabalho com um sistema de divisão de receitas semelhante ao da NBA.

    ResponderEliminar