16.10.10

Jordan marca 100 pontos



Será que íamos ler estas palavras nas páginas de algum jornal ou site se Michael Jordan jogasse hoje na NBA?
A acreditar no próprio, sim. His Royal Airness disse recentemente numa entrevista ao USA Today que o jogo "está menos físico e as regras mudaram, obviamente." E acredita que "com estas regras (...) podia marcar 100 pontos." Poderia?

A marca mítica e (quase) impossível dos 100 pontos só foi conseguida uma única vez na história da NBA. Wilt Chamberlain marcou 100 pontos no dia 2 de Março de 1962, na vitória dos Philadelphia Warriors (a sua equipa) sobre os New York Knicks, por 169-147. Esse recorde impressionante foi conseguido com 36-63 em lançamentos de campo e 28-32 em lançamentos livres (uma marca tão ou mais impressionante para um jogador que tem uma percentagem de carreira de 51.1%). Nessa época de 61-62 Chamberlain acabou com as inalcançáveis médias de 50.4 pts e 25.7 res. Números estratosféricos que seguramente mais nenhum jogador conseguirá alguma vez alcançar.

E Jordan? Poderia ele marcar 100 pontos num jogo se jogasse na NBA actual?
A regra a que ele se refere é o hand check, que permitia a um jogador defensor utilizar o ante-braço para controlar o atacante (à semelhança dum defensor que defende um atacante de costas para o cesto). No final dos anos 80 e início dos 90, Jordan sofria uma defesa muito agressiva de equipas como os Pistons e os Knicks, que usavam e abusavam desses contactos (e doutros menos legais) até ao limite. Hoje em dia, os defensores já não podem fazer isso e os contactos com o portador da bola são mais restritivos. Isso seria algo que beneficiaria seguramente um jogador tão forte no um contra um e a atacar o cesto e penetrar como Jordan.

Poderia marcar mais facilmente contra as defesas actuais então? Não necessariamente, porque, mesmo com a regra antiga, não significa que as defesas era mais fortes nessa altura. Porque Jordan não sofria esse tipo de defesa com todas as equipas. Na verdade eram apenas uma minoria de equipas que o defendiam assim e faziam-no muito mais nos playoffs do que na temporada regular.
Eram comuns os jogos com muito mais de 100 pontos marcados por cada equipa. Magic, Bird, Jordan tiveram muitos jogos em que as suas equipas marcaram 120, 130 ou mesmo 140 pontos. O jogo, apesar da regra, era mais aberto. Os jogadores tinham uma mentalidade ofensiva e as equipas queriam marcar pontos.

A NBA em que Jordan jogou tinha mais posses de bola e um ritmo mais alto.
A época em que Jordan teve a média de pontos mais alta foi a 86-87, onde marcou 37.1 pts/jogo. Nessa época, a equipa dos Bulls teve a média de posses de bola por jogo mais baixa da NBA e, mesmo assim, era 3.1 mais alta que a média das equipas em 2009-10. A última equipa em 87 jogava mais três posses de bola por jogo do que a maioria das equipas agora.
O jogo está mais defensivo, mais fechado e, apesar dos defensores individuais terem mais restrições, as equipas, colectivamente, estão a defender melhor.
Muitas equipas, em muitos jogos, não chegam aos 100 pontos. Na maioria dos jogos uma equipa não tem sequer 100 posses de bola.

Wilt fez 63 lançamentos de campo e 32 lançamentos livres. Isso são números que uma equipa inteira pode fazer hoje num jogo. Por isso, a menos que Jordan jogasse apenas com esse objectivo em mente, tomasse para si todas as posses de bola e fizesse um aproveitamento muito bom delas (Kobe Bryant já tentou e ficou-se pelos 81), não nos parece que fossemos ler aquelas palavras nas páginas de nenhum jornal ou site. Há coisas que nem o melhor jogador de sempre poderia fazer no basquetebol moderno.

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