13.3.12

O que se passa, afinal, com os Knicks?


Ontem, no fim de mais um jogo e mais uma derrota dos Knicks, Luis Avelãs estava incrédulo, pois, na sua opinião, a equipa de Nova Iorque tem um dos melhores plantéis, se não mesmo o melhor, da liga. E afirmou de seguida que nem ele, nem ninguém podia explicar o que se passa com os Knicks. Somos obrigados a discordar de ambas as afirmações. 
Sobre a primeira: não, não é o melhor, nem um dos melhores plantéis da NBA. E sobre a segunda: é para isso mesmo que existem os comentadores.


Os Knicks têm jogadores que são muito bons em determinados aspectos do jogo, mas não têm nem jogadores completos, nem um plantel equilibrado. Stoudemire, Carmelo e JR Smith, por exemplo, são excelentes atacantes, mas maus defensores. Tyson Chandler e Landry Fields são excelentes defensores, mas limitados no ataque. E Jeremy Lin, apesar de todo o entusiasmo à volta dele e de toda a excitação que trouxe à liga, é um base mediano e com muitas limitações. 

O que esta equipa de Nova Iorque tem é um plantel que engana o espectador menos atento, mas não sobrevive a uma análise mais informada. Olha-se para os nomes individualmente (Carmelo, Stoudemire, Lin, JR Smith, Chandler, Baron Davis) e dá ares de grande equipa. Mas se olharmos mais de perto, não é bem assim. Não lhes faltam jogadores mediáticos, nem jogadores capazes de highlights memoráveis e jogadas espectaculares. Mas falta-lhes qualquer-coisa-que-se-pareça-com-uma-equipa. Para já, não são mais do que um conjunto de jogadores. E um conjunto sobre o qual pendem muitas dúvidas sobre a sua compatibilidade e capacidade de formar uma unidade coesa. Recorrendo à velha metáfora do puzzle: se as peças não encaixam, não há puzzle para ninguém.

E isto explica já, em parte, o que se passa com os Knicks. Outra parte explica-se com a falta de aplicação (e de vontade?) nas tarefas menos glamourosas do jogo e nas pequenas coisas necessárias para vencer (ir ao chão e lutar por bolas divididas, batalhar nas tabelas pelos ressaltos, suar e sofrer na defesa). São bem conhecidas as deficiências de Stoudemire e Carmelo nesse departamento, pelo que não precisamos de as dissecar mais. Apesar disso, com Chandler no interior e Shumpert no perímetro, a defesa dos Knicks está melhor que antes e não tem sido o maior problema deles este ano.

É no ataque que estão piores que antes. E isso está relacionado com a questão da incompatibilidade e desequilibrio do plantel. Se olharmos mais atentamente para o sistema de Mike D'Antoni percebemos as causas. O sistema ofensivo de D'Antoni é um ataque aberto, sem qualquer jogador a poste baixo ou em posição interior. Começa, tipicamente, com um pick and roll alto, no meio do campo (entre o base e o power forward ou o poste), e os outros três jogadores abertos. Após o bloqueio, o bloqueador desfaz e, dependendo da reacção da defesa, os jogadores abertos mantém-se no exterior para receber e lançar ou cortam para receber mais perto do cesto. É um sistema baseado na penetração do base, no passe, na movimentação da bola e no movimento dos jogadores sem bola. 

Mas, com Chandler e Stoudemire, têm um problema: Stoudemire é mais eficaz como bloqueador-desfazedor no pick and roll do que como jogador aberto. Mas se Stoudemire for o jogador no pick and roll, Chandler fica sem lugar no ataque, pois não é capaz de jogar afastado do cesto ou de lançar de meia distância. Por isso, Chandler é o jogador utilizado no pick and roll. E isso deixa Stoudemire como jogador aberto, muitas vezes do lado contrário do campo, o que tem reduzido bastante o seu papel no ataque e a sua eficácia. 


E o mesmo acontece com Lin e Carmelo. Lin é o base e o jogador que inicia o ataque no pick and roll. Mas Carmelo não sabe jogar sem bola e é perigoso apenas com a bola na mão. Se fosse utilizado como driblador no pick and roll, poderia ser mais eficaz, mas aí eliminaria o papel de Lin no ataque. D'Antoni poderia fazer o pick and roll entre Carmelo e Stoudemire, mas aí Lin e Chandler ficariam sem lugar no ataque. Para além disso, Carmelo recorre muito mais às jogadas de isolamento e temos dúvidas se seria assim tão bom no pick and roll.

Assim, os Knicks iniciam o ataque com Lin e Chandler e Stoudemire e Carmelo tornam-se as opções secundárias e têm de jogar sem bola, algo em que nenhum deles é bom. E as dificuldades em integrarem-se no ataque nesses papéis são óbvias. Carmelo e Stoudemire ficam muitas vezes alheados do ataque e com longos períodos em que não tocam na bola e não participam activamente nos movimentos ofensivos.
JR Smith é outro jogador que só sabe jogar com a bola nas mãos. Por isso, um ataque baseado no passe e na rotação de bola, torna-se um onde cada jogador joga à vez e quando tem a bola.

Tal como acontece na questão do plantel, também o ataque dos Knicks é desequilibrado e disfuncional.
E temos sérias dúvidas que, com estas peças e este sistema, alguma vez deixe de o ser. Ou muda o sistema (algo que só acontecerá se mudar o treinador) ou mudam as peças (algo que, pelo investimento feito nestes jogadores e pelo seu peso mediático, dificilmente acontecerá).

O que se passa com os Knicks? Muitas coisas, como veem. E nenhuma delas é de fácil ou rápida resolução. Por isso, o futuro mais próximo não se adivinha fácil para os lados de Manhattan.

20 comentários:

  1. Stoudemire13/03/12, 19:14

    Excelente análise!

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  2. Análise estupenda!!! Simplesmente "assombrosa" (no sentido da palavra mais positivo que pode haver).

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  3. Concordo.. excelente análise =)

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  4. Excelente post! Para mim o problema maior é o treinador, muito limitado e parece me que as coisas têm que ser como ele quer, mesmo que corram mal vezes sem conta. Não percebendo muito de sistema táctico de basket vou falar com base do meu senso comum sobre os kicks. Têm 2/3 "big players"; anthony, stoudemire e chandler. Os dois primeiros podem não defender bem mas podem melhorar se assim o quiserem. Dois excelentes jovens provenientes do draft( não sei se foi sorte ou não); shumpert e fields. Lin e baron davis capazes de jogar basket e fazer bem o trabalho. 1 atirador que me parece bom, o novak. Com estes jogadores dá muito bem para fazer uma prestação bem melhor do que têm feito. Uma cidade mediática, adeptos apaixonados, uma arena mítica... e depois um treinador muito fraquito. Torço para que os Bucks ou os Cavs os passem na conferência para ver se a direcção abra os olhos. (Não sou fã de nenhuma das 3 equipas). Acho que o Márcio podia muito bem treinar os knicks que pior não fazia de certeza ;)

    Abraço a todos!

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  5. Gostei da qualidade da análise da situação atual dos Knicks. Acho que o surgimento repentino de Lin, misturado com as ausências prolongadas de Carmelo Anthony e Baron Davis, e também a entrada tardia de JR Smith no plantel, fazem com que nesta altura a equipa ainda esteja à procura de um novo equilíbrio. Assim que for encontrado acho que os Knicks se tornarão uma equipa que os adversários quererão evitar nos playoffs.

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  6. O principal problema é o treinador. É muito difícil não fazer melhor. Mas há vários problemas. Há, de facto, muita gente mediática mas a render pouco. E será coincidência o abaixamento de forma do Lin (que tem algumas limitações, sem dúvidas, mas que é um bom jogador) com o reaparecimento do Carmelo? E será coincidência que com o regresso do Carmelo, os resultados tenham piorado tanto? Meu caro Márcio, gostaria que fizesse um post em que comparasse os resultados dos Knicks com e sem Carmelo.

    Mandem o Carmelo para as urtigas, a sério. Troquem-no por dois bons jogadores "não vedetas". O Carmelo é bom jogador, obviamente. Mas em campo nem sempre corresponde com rendimento ao seu talento. Lança muito e a eficácia é pouca, quando está em campo os Knicks defendem com 4. E é um eucalipto. Com ele em campo o Stoudemire joga pior, o Lin também. É um activo talentoso que poderia render um óptimo negócio que melhoraria a equipa.

    Depois um JR Smith que é "perfeito" para minar um balneário já cheio de supostas estrelas. Um Baron Davis que já teve muito melhores dias. Entre outros...

    Para mim principais culpados: D'Antoni e Carmelo Anthony. Ambos deviam sair. Um acabará por ir. Outro não, infelizmente.

    EM relação ao Amar'e, o ano passado antes da ruinosa troca com Denver que trouxe o Carmelo estava a fazer uma época fantástica. Com Carmelo piorou tremendamente.

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    1. Concordo perfeitamente. Quando surgiu o Lin, adorava ver os NYK. Regressa o Carmelo, apesar d marcar sempre os seus 20 pontos ou mais, o resto da equipa deixa d render substancialmente.

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  7. Excelente análise, excelente blog! Eu acredito que este problema vem da troca alucinada que os Knicks fizeram o ano passado, tudo para terem o Carmelo Anthony na equipa... se tivessem apostado na continuidade daquela equipa, que estava a fazer furor e notava-se muita qualidade colectiva, certamente que hoje Nova Iorque estava muito mais animada em termos "basquetebolisticos". O Melo Drama deu cabo da equipa... ter Gallinari em vez de Carmelo Anthony nesta altura seria muito melhor, e o cap obviamente agradecia!
    Continuação de um excelente trabalho!

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  8. Excelente análise, sem dúvida. Os Knicks têm de render mais, tem de haver mais esforço defensivo e têm de mudar o playbook ofensivo também. Parece-me que o Phil Jackson vai lá cair em breve e ganhar mais um título ou dois.

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  9. excelente post. quem sabe sabe, e o Márcio Martins claramente sabe de basket.
    em relação ao knicks, o post responde à pergunta o que se passa com eles. uma equipa que basicamente só tem uma jogada de ataque, não se pode esperar grande coisa. esta jogada de ataque fica muito dependente da capacidade de penetração do base. se o jeremy lin conseguir atacar o cesto de forma eficaz, os knicks tem hipóteses de ganhar jogos. se não, como tem acontecido nos últimos jogos, o ataque bloqueia e assim perdem jogos.
    portanto por mim o melhor que tinham a fazer era despedir o treinador, que é bastante incompetente, e ir contratar o xavi pascoal ou o david blatt

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  10. será que está para breve o tão anunciado " end of the circle" por parte de um certo e determinado treinador que tem os dedos cheios de aneis?
    o triangulo magico, com este plantel, não era de todo uma má opção

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  11. José Silva14/03/12, 17:06

    Concordando com a análise, mas é dificil aceitar que uma equipa com estes jogadores jogue tão pouco.

    E parece o caminho sem fim dos Knicks, nos últimos anos quantos conjuntos de jogadores de qualidade fizeram épocas desastrosas nos Knicks

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    1. Sem dúvida...mesmo estando longe do rendimento máximo, os Knicks tem jogadores para estar a lutar pelos lugares cimeiros do Este. Parecem-me claramente a desilusão da época até ao momento.

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    2. Hoje devem ganhar though. Os Trailblazers estão anémicos.

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  12. ultima hora: D'Antoni sai, entra Woodson

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    1. nao entra nada. era o adjunto...

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  13. http://www.nba.com/2012/news/03/14/knicks-dantoni-resigns.ap/?ls=iref:nbahpt1

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  14. Off Topic:
    Monta Ellis, Ekpe Udoh e Kwame Brown nos Milwaukee por troca com Andrew Bogut e Stephen Jackson.

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  15. este post foi a gota de agua para o D Antoni

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  16. tenho seguido muito este blog e todos os dias fico cada vez mais agradado de o fazer e de ver o quanto o seu autor percebe deste deste fantástico desporto. Desde já um muito obrigado.

    esta análise acho que está muito boa, mas também devo dizer que por individualidades os NYK parecem mesmo uma grande equipa, acho que a opção de mudar de treinador será mesmo a mais correcta. já nos playoffs do ano passado contra os celtics parecia que a unica reaçao de NYK era bola para o carmelo e ele que resolvesse, o que até estava a funcionar, mas agora que ele nao está com a mesma forma, enfim,...

    continua com os bons post e análises

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