4.3.11

O Joker dos Spurs


Em 1999 ainda comprávamos as botas de basquete com escudos, jogadores memoráveis como Bossio, Michael Thomas e Tote vestiam a camisola do Benfica, Rui Bandeira vence o Festival da Canção, a Microsoft lança a segunda versão do Windows 98 e a fortuna de Bill Gates atinge os 100 mil milhões de dólares. E os Spurs tiveram a sua primeira de doze temporadas regulares consecutivas com mais de 50 vitórias.

Esta 4ª feira, com a vitória em Cleveland (109-99), os Spurs fizeram o que já parece rotina para eles: conseguir pelo menos 50 vitórias numa temporada regular. E igualaram o recorde dos Lakers dos anos 80 para mais épocas consecutivas a fazê-lo. A equipa de Kareem Abdul-Jabbar e Magic Johnson esteve doze anos consecutivos a ganhar mais de 50 jogos, marca agora atingida pelos texanos.

E atingiram as 50 vitórias mais rápido que nunca, no seu 61º jogo. Em 2005-06, ano em que venceram o máximo de jogos da sua história (63), tinham um recorde de 48-13 neste ponto (nesse ano perderam com os Mavericks numa renhidíssima Final de Conferência, em 7 jogos). Estão assim encaminhados para a sua melhor temporada regular de sempre.

Muitas razões já têm sido apontadas para o sucesso dos Spurs esta época: Parker e Ginobili estão mais frescos e livres das lesões que os limitaram o ano passado, Gregg Popovich é um dos melhores treinadores da liga e um mestre a gerir a equipa em situação de jogo, jovens como George Hill e DeJuan Blair continuam o seu desenvolvimento e dão um contributo cada vez mais sólido e relevante, veteranos experientes como Matt Bonner e Antonio McDyess continuam a contribuir e os dirigentes texanos continuam a sacar pérolas como Gary Neal no draft. Mas uma razão que tem sido menos destacada e é uma das maiores diferenças em relação ao ano anterior é o jogo de Richard Jefferson.


Quando assinou pelos Spurs na temporada passada, esperava-se que tivesse um impacto grande na equipa e fosse a peça que faltava para voltarem a ser candidatos ao título. Jefferson era um ex-All Star, com duas idas às Finais da NBA com os Nets e médias de carreira de 18 pts, 5.8 res e 3 ass.

Mas a sua primeira época nos Spurs foi uma desilusão. Jefferson parecia muitas vezes perdido no ataque e ausente em grandes períodos de jogo. O seu contributo foi muito menor do que esperado e rapidamente apontaram esta contratação como um fracasso. Para piorar as coisas, os Spurs ficaram muito abaixo do esperado. E para os críticos, para além da idade das suas estrelas (eram já velhos e tinha passado o seu tempo), Jefferson era outra das razões para isso (não tinha jogado ao seu nível e não compensou o declínio dos outros).

E se este ano as suas estrelas passaram de velhos a experientes, de ultrapassados aos mais fortes candidatos, Jefferson é também uma das razões. Um responsável mais silencioso que os outros, mas igualmente importante.

Como foi também referido pelos seus defensores no ano passado, é comum os jogadores levarem tempo a adaptar-se ao sistema ofensivo de Gregg Popovich e têm muitas vezes um primeiro ano mais fraco (este ano temos o exemplo de Tiago Splitter). E no seu segundo ano, Jefferson está a provar a teoria.

Se olharmos para os seus números totais não sofreram grandes alterações. O ano passado terminou com médias de 12.3 pts, 4.4 res e 2 ass. Este ano estão muito semelhantes: 11.6 pts, 4 res e 1.4 ass. Mas está a fazê-lo com melhores percentagens de lançamento (46% em 2009-10 e 48.3% em 2010-11 de 2 pts e 31.6% contra 43.9% de 3 pts) e com um melhor aproveitamento das posses de bola (ORtg de 116 contra 110 na época passada).

Se antes era comum ver Jefferson desligado dos movimentos dos seus companheiros, agora ele já percebeu os melhores locais para complementá-los e integrar-se nas movimentações. Dois exemplos típicos desta integração no ataque são estas duas jogadas que temos visto muitas vezes esta época:



Nesta primeira, Jefferson ocupa um posição exterior, no canto do lado do pick and roll alto, fornecendo uma terceira ameaça. Neste ataque, têm a opção de penetração de Ginobili, a opção de assistir para Duncan (se o seu defensor sair a Ginobili) e a terceira opção de assistir para o exterior para Jefferson (se vier ajuda para Duncan). Um exemplo perfeito duma ocupação do espaço equilibrada e duma óptima movimentação da bola.

(outra possibilidade também utilizada é Jefferson ocupar o canto contrário ao lado da bola para o mesmo objectivo: um lançamento de 3 pontos sem contestação)




Nesta segunda Jefferson em vez de ir ocupar a posição no canto do lado contrário da bola, corta para o cesto e, com a atenção da defesa no pick and roll, recebe uma assistência para um alley hoop e um cesto fácil no garrafão.

As opções primárias do ataque são obviamente Duncan, Parker e Ginobili. Por estes jogadores começam a grande maioria dos ataques. A Jefferson cabe o papel de ler a movimentação destes jogadores e preencher os espaços entre eles, reconhecer e ocupar os espaços que ficam livres. E este é o papel fundamental de Jefferson. Complementar o ataque, fornecer opções para, se a defesa conseguir parar as opções primárias, ele estar no sítio certo para receber a bola.

Como resultado disso, o ataque dos Spurs está mais fluído e equilibrado. Mais imprevisível e mais difícil de parar. E os Spurs têm já 51 vitórias a confirmá-lo.

2 comentários:

  1. Completamente de acordo e esta noite mais uma vez foi possivel ver o que é uma equipa 8 jogadores acima dos 10pts.

    Só não entendo o porquê de Miami continuar a procurar um base? Os ataques são sistematicamente dirigidos por Wade e LeBron e comparar o ataque dos Heat, na minha opiniao quase sempre forçado, com a fluidez dos Spurs.


    Qual é a tua opinião Márcio?

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  2. Sim, a fluidez e entrosamento do ataque dos Spurs é incomparável com o dos Heat. Mas a maioria dos jogadores de San Antonio já estão juntos há muito tempo, essa fluidez no ataque não se constrói dum dia para o outro.

    Quanto à procura do base, prende-se muito com questões defensivas. Apesar de Lebron e Wade jogarem muito com a bola nas mãos e dirigirem ataques, a posição de base continua a ser uma fraqueza na defesa dos Heat (Derrick Rose foi o último a mostrá-lo!)

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