25.6.11

Um homem numa missão


Após a cerimónia do Draft, para todos os recém-rookies seguiram-se as entrevistas da praxe e as fotos para imortalizar a ocasião. E nesta ocasião, a NBA pediu-lhes para posar para as objectivas a segurar um quadro. Um quadro onde lhes pediram para escrever uma palavra que descrevesse como se sentiam naquele momento. Entre outras de similar ou aparentado significado, happy e blessed foram as mais frequentes. Mas um jogador escreveu uma que mais ninguém escreveu:


Mission foi a escolhida por Kenneth Faried. Enquanto todos os outros estavam a festejar a sua chegada à NBA, o power forward escolhido pelos Nuggets na 22º posição deixava claro que, para ele, isto é apenas o início. Um passo numa longa caminhada. Uma caminhada que começou ali bem perto do Prudential Center, onde a cerimónia do draft se realizou.

Faried cresceu em Newark, numa zona pobre dominada pelos gangs e pelo tráfico de drogas. E a sua mãe só queria vê-lo fora dali. "Não é fácil tomar conta dum filho aqui", recorda Waudda Faried, "preocupamo-nos com as armas e as drogas. É o mais difícil de Newark, eu não queria que ele fosse mais uma estatística ou pensasse que não havia mais nada para além disto." Foi por isso com alívio que recebeu a notícia que o jovem Kenneth, que não tinha grandes resultados escolares e não tinha nenhuma universidade grande a tentar recrutá-lo, tinha ganho uma bolsa de estudo na modesta Morehead State University. E assim ele trocou as ruas de New Jersey pelas colinas do Kentucky. E, pela sua mãe, tornou-se o melhor ressaltador da NCAA na era moderna.

Waudda sofre de lúpus, uma doença rara e auto-imune que ataca as articulações e os orgãos, e um dia, quando um Kenneth adolescente chegou a casa chateado por não marcar muitos pontos nos seus jogos de liceu, ela disse-lhe para ir atrás de todos os falhanços dos outros. Se queria marcar que fosse atrás de todas as bolas e criasse as suas próprias oportunidades. Ele deu-lhe ouvidos. E desde esse dia, cada ressalto que apanha é por ela.

Porque para ele, cada ressalto é muito mais que mais uma posse de bola. É mais um dia de vida para a sua mãe. "Ver a minha mãe lutar contra a lúpus, é uma coisa que fica contigo. Ela continua a lutar e a sobreviver. Aprendi muito com ela, sobre não desistir, ter paixão por aquilo que fazemos. E ela é apaixonada pelos meus ressaltos. Por isso, cada vez que jogo, digo para mim mesmo que cada ressalto vai acrescentar mais um dia à sua vida."

Se isso fôr verdade, então a sua mãe tem muitos dias de vida pela frente. Porque nos seus quatro anos de carreira universitária, Faried ganhou 1673 ressaltos, o máximo que qualquer jogador já conseguiu na era moderna da NCAA (desde 1973, quando os freshmen se tornaram elegíveis). Quebrou este ano esse recorde (que pertencia a Tim Duncan), foi o melhor ressaltador universitário nas duas últimas épocas (13.0 e 14.5) e é comparado a outros dois especialistas da arte de lutar por cada bola que não entra no cesto, Ben Wallace e, claro, Dennis Rodman.

"A minha mãe adora", diz Faried, "Quando lhe ligo a seguir a um jogo, falo-lhe dos pontos que marquei e dos afundanços que fiz e ela pergunta-me 'quantos ressaltos conseguiste?' Se digo nove não é suficiente, mesmo que tenha marcado 20 pontos. Por isso, estou sempre a tentar fazer duplos dígitos. Não posso desapontá-la."

Faried não é o jogador mais talentoso do draft. Os seus movimentos ofensivos ainda são muito rudimentares, o seu lançamento é fraco e a sua percentagem de lances livres não é muito boa. Não é um jogador para jogar de costas para o cesto e superiorizar-se ao seu adversário no 1x1. Mas é provavelmente o jogador mais trabalhador de todo o draft. É especialista apenas numa área do jogo, mas um com possibilidades de se tornar o melhor nessa área, um daqueles especialistas que surgem uma vez em cada geração. O potencial fora do normal está lá. E a motivação especial também. E essa costuma ser uma combinação que faz jogadores especiais.

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