20.6.13

Heat x Spurs - 6º Round


O plano dos Spurs correu bem durante 36 minutos. Com uma dieta equilibrada de jogo interior e jogo exterior e com um esquema defensivo semelhante ao que utilizaram no jogo 5 (com Diaw a defender LeBron durante largos bocados), chegaram ao fim do 3º período com 10 pontos de vantagem e bem encaminhados para fechar a série e conquistar o seu quinto título.

Na primeira parte, (explorando a defesa agressiva dos Heat nos pick and rolls e o facto do defensor de Danny Green não o largar e não ajudar - ou ajudar pouco -) carregaram no interior e Duncan, com mais espaço e apenas contra um defensor, dominou no interior (25 pts e 10 res ao intervalo! dissemos antes do jogo que Spoelstra poderia tentar alternar entre o small ball e o big ball para contrariar o jogo interior dos Spurs; Spo não fez isso e optou por uma solução intermédia: não colocou Bosh e Andersen a jogar juntos, mas, depois do Birdman não ter jogado nos dois jogos anteriores, recorreu a este e alternou entre os dois na defesa a Duncan). 

No 3º período, foi a vez de Tony Parker. O francês foi mais agressivo (e profundo) nas penetrações e, ao seu estilo, manteve os Spurs na frente com alguns cestos e lançamentos acrobáticos. Os Heat não largavam Danny Green (a única vez que o deixaram sozinho nos três pontos Green marcou - o seu único triplo do jogo - acabou com 1-5) e Manu Ginobili voltava a desaparecer em combate, mas Duncan, Parker e a boa defesa dos Spurs mantinham a equipa da San Antonio na frente e em controlo do jogo.


Mas depois os Heat, a perder por 10 e a verem o título por um canudo, acordaram no 4º período. Erik Spoelstra disse aos seus jogadores que teriam de fazer o melhor período defensivo dos playoffs. E os seus jogadores assim fizeram. Caíram em cima dos Spurs e foram aquela defesa sufocante que conseguem ser. Foram agressivos na defesa ao jogador com bola, pressionantes nas linhas de passe e rápidos nas rotações e ajudas.

E LeBron James encarnou o LeBron dos tempos de Cleveland e carregou a equipa no ataque. Atacou o cesto sem descanso, pareceu mais agressivo e determinado que nunca, deixou tudo em campo naqueles 10 minutos (e será que hoje vai jogar sem fita?) e marcou metade dos seus 32 pontos nesse 4º período. Depois de ter sido limitado pela defesa dos Spurs a 3-12 em lançamentos nos 3 primeiros períodos, marcou 7 em 10 no 4º. Ainda defendeu (bem) Tony Parker e andou a correr atrás do base francês durante esse tempo (e terminou o jogo com mais um triplo-duplo: 32 pts, 11 ast e 10 res e ainda 3 rb).

Parker e Duncan pareceram esgotados nesse 4º período e o ataque dos Spurs conseguiu apenas 9 pontos nos primeiros 9 minutos do período. Mesmo assim, os Spurs sobreviveram à cavalgada dos Heat e, a perder por 3 a menos de 2 minutos do fim, passaram para a frente com duas jogadas heróicas de Tony Parker (um triplo em cima do tempo de ataque e mais uma penetração acrobática) e ficaram a ganhar por 2 a 58 segundos do fim.

Depois aconteceu aquele minuto final impróprio para cardíacos:


LeBron quase deitou a perder o seu 4º período heróico com dois turnovers consecutivos. Dois turnovers que deram quatro lances livres para Ginobili (após os Heat terem, naturalmente, feito falta para parar o tempo) e o argentino marcou três (apenas três, como se veio depois a revelar). E a 28 segundos do fim os Spurs ganhavam por 5 pontos e tinham uma mão no troféu Larry O'Brien.

Mas depois LeBron e Ray Allen salvaram um jogo que parecia perdido (e quem sabe, dependendo do que acontecer hoje, podem ter salvado a temporada dos Heat). James primeiro (no ataque seguinte) e Jesus Shutllesworth a seguir (depois de nova falta dos Heat e de Leonard só ter marcado um lance livre), marcaram dois triplos milagrosos (o de Allen então deve ter posto paralíticos em Miami a andar!) e forçaram o prolongamento.

Nesses cinco minutos extra, os jogadores estavam exaustos e não houve táctica que resistisse. O prolongamento foi jogado mais com o coração, mais com ir buscar forças à reserva, do que outra coisa e os Heat arrancaram uma vitória a ferros (com dois desarmes de lançamento decisivos de Chris Bosh, nos dois últimos lançamentos dos Spurs).

Apito final, vitória inacreditável dos Heat e decisão marcada para um épico jogo 7. E a internet quase veio abaixo com as críticas a Popovich (e aos Spurs).


O melhor treinador da NBA esteve mal ou não? Vamos lá então às críticas que lhe apontaram, analisando uma de cada vez:

Popovich fez bem em não ter Duncan em campo nas duas últimas posses de bola do 4º período, quando os Heat marcaram os dois triplos?
Olhando para trás (um luxo que um treinador não também quando tem de escolher a estratégia), não, mas Popovich, sabendo que os Heat precisavam de lançar de três, optou por defender o perímetro e ter defensores móveis para defender os triplos (os Spurs trocam em todos os bloqueios nestas situações, e com Duncan não podem fazer isso - Duncan não podia ficar a defender um dos jogadores exteriores).


Isso custou-lhe o jogo? Mais uma vez, olhando para trás, sim, mas e se os Heat conseguissem um lançamento completamente sozinho de três? Todos iam dizer que deviam ter um defensor nesse jogador. Popovich jogou com as probabilidades e meteu um cinco que lhe dava mais probabilidades de defender melhor a linha de três pontos (e os Heat iam obrigatoriamente lançar de três). Faltou assegurar o ressalto.


A parte da defesa da linha de três pontos correu bem (eles falharam), a parte do ressalto é que não correu bem (nenhuma das opções era sucesso garantido, Popovich tinha de arriscar e meteu os ovos num dos cestos; entre defender pior a linha de três pontos para ter melhores probabilidades no ressalto ou defender melhor a linha de três pontos, mas ter jogadores mais baixos no ressalto, preferiu a primeira). Teve azar (e temos também de dar mérito a Chris Bosh, que conseguiu um grande ressalto ofensivo, e a Ray Allen, que meteu um triplo incrível). 

Não se trata da opção de Popovich ter sido má, apenas não saiu bem a execução. E Tim Duncan concorda.




Deviam ter feito falta na última posse de bola do 4º período?
Também aqui é fácil dizer que sim depois do jogo e depois de sabermos o que aconteceu, mas não é uma decisão tão óbvia assim.

Os Heat tiveram a bola com 19.4 segundos para jogar. Aqui era cedo demais para fazer falta. Imaginem tudo o que ainda podia acontecer se fizessem falta falta tão cedo: os Spurs faziam falta, Chalmers ia para lance livre e marcava os dois. Ficavam os Heat a perder por um, com uns 16, 17'' para jogar. Os Heat faziam falta de novo e ia um jogador dos Spurs para lance livre. Tinha de marcar os dois para continuarem à frente por três. E os Spurs eram confrontados de novo com a mesma situação. Fazer falta ou não? Faziam falta. Mais dois lances livres para os Heat. Falta dos Heat a seguir. Mais dois lances livres para os Spurs.
E tanta coisa que podia correr mal pelo meio. Um lance livre falhado pelos Spurs e de repente aos Heat só ficavam a perder por 2 e já não precisavam de um triplo, bastava um cesto de dois. É claro que um jogador dos Heat também podia falhar e a vantagem dos Spurs aumentar. Ou então (worst case scenario) podia marcar o primeiro, falhar o segundo, os Heat ganharem o ressalto, marcarem um triplo e passarem para a frente por um.

Para além disso, com a regra da continuidade na NBA, o jogador que sofre a falta pode tentar armar o lançamento (ou só atirar a bola lá para cima) e arriscam-se a que o árbitro dê três lances livres. Quando, na Europa, criticamos as equipas da NBA por não fazerem falta esquecemo-nos que com as regras da NBA é mais difícil pôr isso em prática do que no basquetebol da FIBA.

O que queremos dizer com tudo isto é que há tantas possibilidades e tantas variáveis que fazer falta tão cedo é muito imprudente e arriscado. E há tantas variáveis que uma equipa não pode controlar que a estratégia de fazer falta pode ser imprevisível (e sair pela culatra). Ao escolher defender só têm uma variável: defender a linha de três pontos. Só têm de concentrar todos os esforços em não dar uma situação de lançamento sozinho nos três pontos. Uma variável, uma situação para controlar (e um lançamento de três é o lançamento mais difícil do jogo, por isso, manter a outra equipa nessa situação e a precisar obrigatoriamente de um lançamento que os jogadores só marcam, em média, 33% das vezes não é uma má opção).

LeBron lançou o triplo com 10'' para jogar. Até aqui era muito cedo para fazer falta. Depois, no ressalto ofensivo de Bosh, podiam ter feito falta? Sim, aqui podiam (Bosh estava dentro da linha de três pontos e, mesmo com a regra da continuidade, se atirasse a bola lá para cima, eram sempre dois lances livres). Mas mesmo aqui foi tão rápido que mal tiveram tempo para isso. Bosh lutou pelo ressalto (e enquanto a bola estava a ser disputada não iam fazer falta, pois podiam recuperá-la) e assim que o ganhou passou para Allen.

Por isso, antes do lançamento de LeBron era muito cedo (e imprevisível) para fazer falta e depois do lançamento a única oportunidade que tiveram para fazer falta foi no ressalto de Bosh (e não tiveram tempo para fazer).

Há poucas situações (menos do que se diz) onde fazer falta é de facto a melhor solução. Uma coisa é fazer falta mesmo no fim do jogo, a 2, 3, 4'' do fim (quando é o último lançamento e a outra equipa já não terá outra oportunidade), outra bem diferente é fazer falta a 10 ou mais segundos do fim.


Deviam ter pedido desconto de tempo na última posse de bola no prolongamento?
Esta é, talvez, a decisão mais questionável de Popovich. Por um lado, não parar o jogo permitiu atacar a defesa dos Heat sem esta estar montada e preparada e quando os Heat ainda vinham a recuperar defensivamente, por outro não permitiu também organizar um ataque e preparar uma jogada.

O que era melhor? Um ataque com a defesa em contra-pé (e com mais espaço na área restrictiva) ou um ataque planeado, mas com a defesa montada e preparada?

Mesmo sem desconto de tempo (ou se calhar por não terem pedido desconto de tempo), até conseguiram uma boa penetração e uma boa situação de lançamento, apenas não conseguiram marcar (e mais uma vez, mérito também para Ray Allen, que fez uma boa jogada defensiva). Será que tinham conseguido uma situação de lançamento melhor se tivessem feito um ataque preparado e após desconto de tempo?

Mais uma vez, não é uma decisão óbvia e dependeu mais da execução e do resultado da jogada do que da decisão de Popovich. Se Ginobili marcasse cesto, a decisão de Popovich tinha sido de mestre. Assim, foi desastrada. Mas essa é a sina dos treinadores. Se a execução dos jogadores sai bem, a decisão é certa. Se não, a culpa é (quase sempre) da decisão do treinador.



(E hoje temos campeão! Escusado será dizer que hoje ninguém dorme enquanto não se esgotarem todos os segundos no relógio e enquanto não houver uma equipa com o troféu Larry O'Brien bem seguro nas mãos! Até já!)

8 comentários:

  1. Gostei bastante desta resposta de Lebron https://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=endscreen&v=6s4EyBTukO0

    Realmente espera-se mais dele. N pode nos últimos segundos vacilar (e no resto do jogo estar tão intermitente - tirando 10 minutos do último quarto) e tem de ser mais agressivo o jogo todo... De qq forma a sua equipa ganhou e isso é q interessa.

    5 horas para o título ser defendido pelos Heat...

    ResponderEliminar
  2. Essa questão do Popovich não ter jogado com Duncan no início do 4º período, fez-me recordar a polémica que se levantou quando Thibs a ganhar por 20 pontos a meio do 4º período, deixou em campo Rose que se encontrava a recuperar a forma após uma lesão.
    Depois, foi o que todos sabem: a pior lesão que pode haver para um jogador de basquete para Rose, eliminação perante um adversário muito inferior - é verdade que, não só Rose se lesionou, Noah também jogou inferiorizado e acabou por não jogar os últimos jogos, para além das mazelas de Boozer, mas o que ficará na história da NBA é que os Bulls foram uma das poucas equipas que acabaram a época regular em 1º lugar e acabaram eliminados pelos 8ºs - e um ano de sofrimento e incerteza para os adeptos da equipa de Chicago.
    Depois do jogo é sempre muito fácil fazer prognósticos e ninguém sabe o que aconteceria se os 2 treinadores tivessem optado de outra forma.
    Quanto a mim, só se empolam estas questões, porque realmente foram tomadas decisões que tramaram de modo decisivo as duas equipas.

    ResponderEliminar
  3. Os Spurs foram mais equipa, tiveram mais cabeça, e foram melhores durante os "primeiros" 38/39 min do jogo.
    Mas como isto é basquetebol, o jogo só acaba no ultimo segundo, e aí, apareceu Allen, Bosh e James (apesar de 2 turn-overs que poderiam ter sido fatais).

    Os Heat muito provavelmente irão ganhar hoje (moralmente a diferença entre as duas equipas agora deve ser abismal), mas o que provavelmente ficará para a história será este jogo 6, e a forma como os Spurs, através de uma série de más decisões, perderam o campeonato

    ResponderEliminar
  4. Aqui ninguém perdeu nem ganhou campeonato nenhum ainda. Não acredito muito nessa perspectiva da grande diferença moral. O Popovich não deixa que isso afecte os seus jogadores e de certeza que esse jogo já está para trás das costas. Agora em relação aos Heat a moral elevou-se muito porque viram-se a um pequeno degrau de perderam duas finais em três épocas, e hoje têm a oportunidade final de mostrarem que a montagem do big 3 valeu a pena, e no caso particular desta época, mostrar que aquela série de 27 vitórias seguidas não foi origem do acaso...

    ResponderEliminar
  5. Lol Márcio ninguém disse para fazer falta mal eles saissem com a bola... por que podiam considerar falta no acto de lançamento e miami iria para a linha com três lances livres! A grande questão é o porquê de não fazerem imediatamente falta sobre o Bosh quando ele ganha o ressalto e está dentro da linha de triplo! Aí só faltam 6 segundos!! Com 6 seg a tua teoria dos vários lances livres de parte a parte não se coloca (não te esqueças que os heat nem sequer tinham time outs)...é simplesmente a jogada certa a fazer, se virmos as coisas por uma questão de lógica e probabilidades de vencer (ainda por cima) um jogo chave.

    O que eu me estava a referir tem mais a ver com a espécie de código de honra que existe na NBA em que ALGUNS treinadores defendem que não se deve forçar a falta quando se está a vencer por 3pts nos momentos finais... (se vires as declarações finais do Pop ele até menciona que se costuma fazer isso na Europa).
    A verdade é que se eles tivessem feito falta eram os campeões deste ano e que depois de perder daquela forma psicologicamente estão devastados. Espero estar enganado e que este jogo 7 seja fantástico mas penso que eles terão muitas dificuldades para jogar com a mesma intensidade que jogaram no “instant classic” de terça feira.

    Saudações e que a melhor equipa vença!

    P.S- vamos ver se o Lebron se aproxima ou afasta das comparações com a sua excelência Royal Airness

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. stop it please.. ainda estou a ver o jogo mas posso já dizer q Jordan só há 1... parem de tentar criar 1 novo Jordan qdo são incomparáveis

      Eliminar
  6. E fisicamente? Quem acham que se apresentará melhor hoje? No prolongamento já parecia que ninguém tinha grande força...

    ResponderEliminar
  7. Os Spurs ganharam 4 jogos e não ganharam a série. Só têm de se queixar de si mesmos. Para o ano há mais.

    ResponderEliminar